Este é o terceiro artigo em nossa série sobre “drones” (veículos remotamente controlados). Os artigos anteriores são:
Entre os drones, os UAV (“drones do ar”) são os mais conhecidos, e os que estão melhor desenvolvidos, por dois fatores importantes.
- Quase não há obstáculos no ar, com exceção de acidentes no terreno e outras aeronaves. Com isso, é relativamente fácil usar sistemas, como “pilotos automáticos”, que simplificam bastante o controle de tais aeronaves. A importância disso será discutida mais adiante.
- O horizonte rádio aumenta com a altitude. Como a aeronave está acima da superfície, as comunicações por ondas de rádio são relativamente desimpedidas a até dezenas ou centenas de quilômetros, dependendo da altitude. Isso simplifica tanto o controle das aeronaves como a transmissão das informações das mesmas. Todos nós já vimos imagens de alta qualidade sendo transmitidas, em tempo real, a partir de drones aéreos.
Nenhum destes fatores se aplica aos UGV (drones terrestres).
DESAFIOS PARA USOS DOS UGV
Qualquer um que tenha brincado com carrinhos de controle remoto já percebeu alguns desafios para o uso de UGV, e a situação é ainda mais complexa quando se trata de UGV militares.
O primeiro desafio é a infinidade de obstáculos que existem em terra, muitos dos quais são inesperados. Empresas gigantes como a Amazon tentaram automatizar as entregas com robôs, que nada mais são do que um dos tipos de UGV, mas encontraram enormes dificuldades, justamente devido a isso – imagina um cachorro ou uma criança aparecendo do nada. Isso exige que o drone reaja imediatamente, até mesmo sem apoio do operador, o que é bastante complicado por uma série de motivos. Em uma guerra, além de todos estes fatores, ainda temos que incluir ataques inimigos e outros obstáculos, como barricadas artificiais, escombros, crateras…
O segundo desafio, que é consequência do primeiro, é que os obstáculos dificultam ou até mesmo impedem as transmissões de rádio. Este fator é importante em várias situações, por exemplo combate em túneis e edificações, fazendo com que, em muitos casos, o alcance das comunicações seja reduzido a poucos metros. Isso limita bastante a utilização de UGV em várias situações.

O terceiro desafio é a variabilidade de terrenos. Novamente, voltemos aos exemplos das entregas da Amazon. O robô desce do veículo no asfalto, depois sobe numa calçada de concreto, depois passa por um gramado, e sobe numa escada de madeira… Isso dificulta muito fazer com que um mesmo veículo seja eficiente em tudo. Sabemos, por exemplo, que esteiras (lagartas) são ótimas em terrenos como lama, mas são menos eficientes que rodas no asfalto. Isso sem contar outros fatores como escadas, rampas, quinas… Em uma guerra, além de tudo isso, é necessário levar em consideração armadilhas, ataques inimigos, minas terrestres…

Por fim, um UAV que voe a uma altitude elevada o bastante, especialmente durante a noite, fica difícil de detectar com os 5 sentidos. Ou seja, um soldado comum, a menos que tenha sensores especializados, dificilmente conseguirá detectar um drone como o RQ-4 Global Hawk, que voa a altitudes que podem chegar a 60 mil pés (cerca de 18 km), mas consegue localizar muito mais facilmente um veículo como o Goliath. Esta maior facilidade em detectar se traduz em maior facilidade para capturar, com o uso de armadilhas, trincheiras e outros meios.
O resultado destes fatores é que é muito mais difícil controlar UGV do que UAV, ao mesmo tempo em que um UGV é muito mais fácil de ser capturado do que um UAV. Estas dificuldades atrapalharam bastante o desenvolvimento dos UGV.
PASSADO E PRESENTE
O primeiro UGV a entrar em combate foi o Goliath, desenvolvido na Segunda Guerra Mundial pela Alemanha. Era um “mini tanque suicida”, uma mina terrestre móvel. Os fatores que mencionamos acima foram determinantes para que fosse, de forma geral, uma falha retumbante, apesar das tentativas de aperfeiçoamento, algumas das quais aconteceram após a Guerra.

O uso de tais sistemas ficou, de modo geral, restrito a usos especializados, como os robôs para desativação de explosivos, alguns dos quais citados no excelente artigo de Angelo Nicolaci sobre o assunto. O robô da imagem de abertura é utilizado nesta função.
A partir do início do Século 21, com a maior disseminação de sistemas como o GPS e sistemas computadorizados mais eficientes e de custos mais acessíveis, começaram a surgir cada vez mais UGV.
Durante a invasão do Iraque, foram usados UGV não apenas para desativação de explosivos, mas também para explorar prédios, com vários deles sendo destruídos por inimigos. Também no Afeganistão os UGV foram usados para missões como desativar explosivos, principalmente os infames IED (dispositivos explosivos improvisados).
Outro uso, por enquanto bastante limitado, é o de “mulas mecânicas”, com os UGV sendo usados para levar cargas e feridos. Isso alivia a carga dos soldados, um fator importante na sua eficiência, já que alguns dos combatentes modernos levam mais de 40 kg de equipamentos, com severos impactos na sua mobilidade e na sua saúde, tanto no curto como no longo prazo.

Os mesmos usos seguem até hoje, com modelos cada vez mais avançados.
FUTURO
Um uso bastante desejável de UGV é em funções de combate, ou seja, levando armas e usando-as contra os inimigos. Entretanto, os fatores que dificultam o emprego dos UGV são ainda mais pronunciados no caso de atacar diretamente o inimigo.

Um problema bastante sério em guerras é o fratricídio, o infame “fogo amigo”, em que um lado, inadvertidamente, ataca as próprias forças. Por mais que a tecnologia de comunicações tenha avançado bastante, é impossível eliminar o fogo amigo, e o uso de UGV pode complicar ainda mais a situação, com drones atacando forças amigas.
Outro ponto importante é a estabilidade das comunicações. Como um UGV deve reagir caso perca as comunicações, seja por ações de guerra eletrônica, seja por danos ou obstáculos? Aqui entra a importância de um bom “piloto automático” – um UAV com problemas pode acionar o piloto automático e voltar para o ponto de partida, mas para um UGV a situação é muito mais complexa, já que é possível que o caminho usado para a ida esteja modificado na hora da volta.
Ou seja, a menos que a humanidade esteja disposta a operar veículos mais autônomos – com o inerente risco de um “Exterminador do Futuro” – o futuro parece ser mais do que vemos agora: UGV controlados de perto, para funções auxiliares, ou como estação de armas.



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