Este é o último artigo em nossa série sobre “drones” (veículos remotamente controlados). Os artigos anteriores são:
- Guerra dos drones – a revolução
- Guerra dos drones – mísseis de cruzeiro e “drones” aéreos
- Guerra dos drones – terra
Entre os drones, os UAV (“drones do ar”) são os mais conhecidos, e os que estão melhor desenvolvidos, por dois fatores importantes.
- Quase não há obstáculos no ar, com exceção de acidentes no terreno e outras aeronaves. Com isso, é relativamente fácil usar sistemas, como “pilotos automáticos”, que simplificam bastante o controle de tais aeronaves. A importância disso será discutida mais adiante.
- O horizonte rádio aumenta com a altitude. Como a aeronave está acima da superfície, as comunicações por ondas de rádio são relativamente desimpedidas a até dezenas ou centenas de quilômetros, dependendo da altitude. Isso simplifica tanto o controle das aeronaves como a transmissão das informações das mesmas. Todos nós já vimos imagens de alta qualidade sendo transmitidas, em tempo real, a partir de drones aéreos.
Nenhum destes fatores se aplica aos USV (drones marítimos de superfície) ou UUV (drones marítimos subaquáticos).
DESAFIOS DOS DRONES AQUÁTICOS
O primeiro grande desafio é a irregularidade dos mares. Embora, à primeira vista, os mares pareçam serenos e constantes, isso não é a realidade. A superfície dos mares, ao contrário da superfície da terra, se move constantemente, de forma imprevisível e em com amplitude considerável. Uma única marola pode causar um grave acidente a uma pequena embarcação de superfície em alta velocidade – vários acidentes de jet ski tiveram esta origem. Além disso, as condições do mar podem mudar bastante, também de forma imprevisível – um mar calmo pode se tornar muito agitado em questão de minutos ou horas durante uma tempestade.
Abaixo da superfície, além dos efeitos mencionados acima, há de se levar em conta a presença de obstáculos desconhecidos, já que boa parte do fundo dos mares não está mapeado, além da possibilidade de o drone se deparar com bancos de areia e outros obstáculos.
O segundo grande desafio é a limitação do horizonte visual, que limita o alcance das comunicações. De modo geral, a superfície das águas tem um número bem menor de obstáculos do que a superfície terrestre, portanto para os USV este problema pode ser menor do que no caso de drones terrestres.
Entretanto, no caso dos UUV, o problema é ainda maior, já que as ondas de rádio não se deslocam bem na água. Uma possível solução para isso é deixar parte do veículo fora da água, mas isso traz outros problemas.
Estes dois desafios dificultam bastante o uso de pilotos automáticos, já que é necessário aplicar várias correções, e voltamos ao “problema do Exterminador” que acontece nos drones terrestres.
TIPOS DE DRONES MARÍTIMOS
Ao se falar em drones aquáticos é importante lembrar que, ao contrário do ar e da terra, é possível combater tanto na superfície quanto abaixo dela. Os drones para combate aquático de superfície, em inglês, são denominados USV, e para combate subaquático são os UUV.
Um exemplo de USV são os MAGURA ucranianos. A Ucrânia praticamente não tinha Marinha quando foi invadida pela Rússia em 2022, o que permitiu que a Marinha Russa operasse com impunidade praticamente total nas primeiras semanas da guerra.
Entretanto, aos poucos, com o uso de mísseis lançados a partir de terra e drones aéreos, a Ucrânia foi dificultando bastante o uso do Mar Negro pela Rússia, e os USV aumentaram ainda mais os efeitos desta negação.
Os USV ucranianos vêm sendo usado, primordialmente, como “drones kamikaze”, atacando os navios de superfície russos de forma semelhante aos mísseis antinavio, com a dupla vantagem de poder acertar na linha d’água, e com uma carga explosiva bastante grande (o MAGURA, por exemplo, leva 320 kg de explosivos, praticamente o dobro do tradicional Exocet). Como o impacto na linha d’água é abaixo dos locais mais protegidos contra mísseis, acaba tendo maior probabilidade de causar incêndios e explosões secundárias, aumentando ainda mais a eficiência dos ataques.

Outro uso importante é como navios caça-minas, como o MMCM francês. Assim como os robôs usados para desativar explosivos em terra, os USV são ideais para tais missões, já que não colocam tripulantes humanos em risco, já que a missão de desativação de minas é bastante perigosa.

A Ucrânia também anunciou o desenvolvimento de vários UUV, como o Toloka, mas até o momento não há maiores detalhes sobre seu uso. OS UUV sofrem com limitações em relação às comunicações e alcance, ainda mais do que os USV. Entretanto, assim como os torpedos, os UUV kamikaze vão atingir os navios abaixo da linha d’água, portanto é bem provável que sejam ainda mais eficazes do que os USV que levem uma carga explosiva semelhante.

Apesar de uma taxa de sucesso relativamente baixa nos ataques com USV, é importante lembrar que os navios convencionais, tanto militares como civis, são alvos de valor extremamente elevado. Um USV como o MAGURA custa cerca de US$ 250 mil, ao passo que um navio pode custar bilhões de dólares, então ainda que seja necessário lançar dezenas de USV contra um único navio, a relação custo-benefício ainda é extremamente favorável.
CONCLUSÃO
A ‘era dos drones’ se torna cada vez mais complexa, com uma diversidade impressionante de tipos de drones e capacidades.
Embora alguns usos e domínios ainda não sejam tão conhecidos ou frequentes como os drones do ar cumprindo missões de observação e reconhecimento, o cenário está mudando rapidamente, graças a tecnologias como IA (inteligência artificial), o que, mais uma vez, pode acabar descambando para um “cenário Exterminador”, mas é impossível evitar que sejam usadas.


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