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Meio século de F-16!

Em 13 de dezembro de 1973, ou seja, meio século atrás, o primeiro YF-16 foi revelado em uma cerimônia de rollout na fábrica da GD (General Dynamics) em Fort Worth, Dallas, dando assim início à carreira daquela que é certamente a mais bem sucedida plataforma de caças de 4ª geração, o atual LM (Lockheed Martin) F-16 Fighting Falcon.

Curiosamente, o primeiro YF-16 (BuNo 72-01567) voou em 20 de janeiro de 1974, com o piloto de teste da GD, Phil Oestricher, no comando, num evento que ficou conhecido como “Voo Zero”.

No que começou como testes de táxi em alta velocidade, o jato voou devido ao enorme empuxo do motor PW (Pratt & Whitney) F100 e a uma sensibilidade de controle maior do que o esperado. O F-16, entre outras inovações, foi o primeiro avião de produção em série a usar FBW (fly-by-wire), sobre o qual falaremos adiante.

Em vez de lutar contra a aeronave, Oestricher a deixou fazer o que foi projetada para fazer: ele decolou, voou um padrão grande e suave, e pousou com segurança. O motor e o FBW foram ajustados, levando a um “Primeiro Voo” bem-sucedido em 2 de fevereiro de 1974.

Primeiro voo do YF-16

Mas qual foi a origem do F-16? E como ele se tornou tão bem sucedido?

Vamos voltar aos anos 1960, e à participação americana na Guerra do Vietnã, para responder a estas perguntas.

GUERRA DO VIETNÃ

Como apontamos no nosso artigo “Como o F-14 se livrou dos problemáticos TF30?”, a Guerra do Vietnã desfez muitos mitos anteriores e, subitamente, os grandes e pesados McDonnell Douglas F-4 Phantom II se mostraram inadequados para combater os ágeis MiG vietnamitas.

A conclusão da USAF (Força Aérea dos EUA) foi que um novo caça seria necessário. A crença de que o MiG-25 Foxbat seria um super caça reforçou essas conclusões, e a USAF (Força Aérea dos EUA) lançou o Programa F-X, que acabou resultando no McDonnell Douglas F-15 Eagle. O Eagle, hoje fabricado pela Boeing, segue como um dos melhores caças do mundo, com um placar de mais de 100 vitórias em combates ar-ar, e nenhuma derrota.

PROGRAMA LWF

Entretanto, por mais que o F-15 de fato seja um caça fenomenal, ele também é muito caro, principalmente ao se levar em conta outros aliados dos EUA, portanto a USAF teve que desenvolver um outro caça, no Programa LWF, de demonstração de tecnologias, para avaliar se era possível desenvolver um “caça leve”, que pudesse complementar o F-15 nas missões consideradas mais simples, em que os poderosos radares e mísseis do F-15 seriam desnecessários. Os dois finalistas foram o Northrop YF-17 Cobra e o GD YF-16.

Entretanto, durante o decorrer do LWF, os “ventos políticos” entraram em ação, e o LWF deveria concorrer como o futuro caça padrão da OTAN, a chamada “venda do século”. Os concorrentes seriam os europeus Saab Viggen, que voou pela primeira vez em 1967, e o Mirage 2000, que voaria pela primeira vez em 1978. O Programa LWF acabou se tornando o Programa ACF, e o vencedor seria adquirido em grandes quantidades pela USAF, com grandes chances de ser vendido a países da OTAN e à US Navy (Marinha dos EUA), na forma do Programa NACF (ACF da US Navy).

YF-16 e YF-17 durante a competição LWF

O YF-16 foi declarado vencedor do ACF em 1975, e de fato acabou sendo escolhido por diversos países da OTAN. O NACF, entretanto, num curioso revés do destino, acabou sendo vencido por um derivado do YF-17 que acabou se tornando o McDonnell Douglas F/A-18 Hornet, hoje feito pela Boeing.

QUALIDADES DO F-16

O F-16 acabou se mostrando um caça incrível por diversas características que vamos listar a seguir. A GD resolveu apostar pesado em novas tecnologias, e acabou criando uma aeronave simplesmente fantástica em vários aspectos.

As qualidades do F-16 são tantas que ele se tornou o caça moderno mais produzido, sendo superado entre os supersônicos apenas pelo MiG-21 e F-4. Mais de 4.500 F-16 foram produzidos até hoje, e a linha de produção ainda está aberta, produzindo os F-16 Block 70 tanto “zero quilômetro” como fazendo upgrades em aeronaves mais antigas.

FBW

O F-16 incorporou diversos avanços em estudos aerodinâmicos, que acabaram resultando em uma aeronave que, ao contrário do esperado, é instável em voo, ou seja, tem a tendência de sair do controle do piloto a qualquer instante. Isso significa que a aeronave pode mudar a direção do voo bruscamente, mas também significa que piloto nenhum consiga manter a aeronave em voo por muito tempo.

A única solução possível para esse dilema é o FBW, que de forma simplificada é um sistema que controla a aeronave automaticamente em voo. Ao receber um comando do piloto, o FBW primeiro analisa o comando, verifica se ele não excede os parâmetros de voo seguro da aeronave, caso necessário  modifica-os para que sejam seguros, e os transmite, eletronicamente, às superfícies de controle, tudo isso em frações de segundo.

O uso de FBW não só faz com que o F-16 seja extremamente simples de pilotar, como também faz com que seja, até hoje, um dos caças mais ágeis do mundo.

O F-16 é extremamente ágil

MOTOR

Como já disseram os sábios, não existe avião bom com motor ruim. A escolha do motor é parte fundamental do sucesso ou fracasso de uma aeronave, e o F-16 não é exceção. A GD resolveu apostar no motor PW F100, o mesmo do F-15, que tinha acabado de ser escolhido como vencedor do Programa F-X. Esta escolha trazia uma série de benefícios.

O primeiro benefício era contar com um motor que já seria empregado na USAF, portanto seria possível contar com economias de escala e a rede logística e de manutenção daquela Arma.

O segundo benefício era o motor em si, muito mais confiável, potente e econômico do que motores anteriores, como o J79 do Phantom e o TF30 do F-111, dando ao F-16 uma T/W (razão empuxo:peso) melhor do que 1,0, o que se traduzir em uma enorme potência e um excelente payload-range, ou seja, combinação entre alcance e capacidade de carga. O F-16 é superior ao aparentemente mais poderoso F-4, podendo levar cargas maiores às mesmas distâncias, ou as mesmas cargas a maiores distâncias, quando comparado ao Phantom.

O PW F100 até hoje é um dos melhores motores da categoria

Ao longo da história do F-15 e do F-16, decidiu-se que deveria existir a possibilidade de usar um motor alternativo, com o GE (General Electric) F110 sendo escolhido. Os F-16 que usam o F110 são designados com o número de bloco de final 2 (por exemplo, Block 42). De modo geral, o F110 gera um pouco mais de empuxo que o F100.

CAPACIDADE DE CARGA E SENSORES

Apesar de ser um caça relativamente leve, o F-16 tem uma imensa capacidade de cargas, podendo ultrapassar 9 toneladas de armas, 2 ton a mais do que o F-4.

O F-16 pode levar praticamente qualquer arma do vasto arsenal da USAF, além de diversas armas desenvolvidas em outros países

Some-se a isso uma suíte de aviônicos e sensores muito avançados, e o F-16, mesmo nas versões iniciais “peladas”, era capaz de atacar alvos com enorme precisão, como a IAF (Força Aérea Israelense) demonstrou no ataque ao reator nuclear iraquiano em Osirak, perto de Bagdá.

FLEXIBILIDADE

O F-16 foi projetado com bastante espaço interno disponível, que combinado com as características anteriormente citadas, permitiu que fosse adaptável para inúmeras alterações, e os F-16 atuais guardam poucas semelhanças com os F-16A originais.

O protótipo YF-16 tinha um MTOW (peso máximo de decolagem) próximo de 13 ton e era movido pelo motor F100-PW-100 (de 106 kN ou 23.800 lbf). Nos próximos 50 anos, a plataforma passou por uma evolução contínua. O mais recente F-16 Block 70 apresenta um MTOW próximo a 22 ton e é movido pelo motor F100-PW-229 (de 130 kN ou 29.200 lbf).

O F-16I é bem diferente dos F-16A originais

Mais e melhores sensores, maior capacidade de combustível, motores mais potentes… tudo isso e muito mais foi incorporado ao F-16 ao longo dos anos, tornando o leve e relativamente simples F-16A original chegasse ao nível dos poderosos e versáteis F-16E, F-16I e F-16V atuais, que levam algumas das melhores suítes de aviônicos e sistemas de armas da atualidade, rivalizando em capacidades com projetos mais modernos, como o Rafale e o Eurofighter.

E O BRASIL?

Como apontado pelo Professor Luiz Reis no seu excelente artigo “A FAB QUIS… MAS NÃO VIERAM! ALGUMAS AERONAVES QUE NÃO OPERARAM PELA FORÇA AÉREA BRASILEIRA”, a FAB avaliou o F-16 em algumas ocasiões, mas acabou não adquirindo a aeronave.

Entretanto, uma aquisição futura do modelo não pode ser descartada, por alguns motivos.

O primeiro deles é a grande quantidade de células disponíveis nos EUA. OS EUA têm o costume de comprar mais armas do que precisam, e deixar parte delas estocadas, tanto para uso em guerras como para repassar a países aliados através do programa FMS (vendas militares ao estrangeiro), que basicamente repassa, a custos irrisórios, tais armas aos aliados, mas os contratos trazem restrições, como a obrigatoriedade de contratar serviços americanos para manutenção e operação de tais armas.

O segundo motivo é o estado complicado em que se encontra a Defesa brasileira, inclusive a FAB. Embora a FAB tenha conseguido se modernizar relativamente bem, o crônico descaso político com a Defesa fez com que as Armas se encontrassem em situação complicada.

Nos anos 1990, a FAB estava em uma situação relativamente confortável, pois operava números razoáveis dos Dassault F-103 Mirage III, Northrop F-5, AMX International A-1 e Embraer AT-26 Xavante.

O Programa FX deveria ter adquirido um novo caça já nos anos 1990, mas devido às mudanças geopolíticas ocorridas no Brasil e no mundo, a aquisição só acabou se concretizando com a escolha do Saab/Embraer F-39 Gripen em 2013, com o primeiro deles chega somente em 2020.

Ou seja, demorou três décadas a mais do que o inicialmente previsto para receber o novo caça.

Nesse ínterim, a FAB foi forçada a aposentar vários caças, e a manter os demais em operação por mais tempo que o inicialmente programado, criando uma situação conhecida como obsolescência em bloco, ou seja, vários sistemas entrando em situação crítica, de precisar de substituição, ao mesmo tempo.

O Mirage e o Xavante foram totalmente aposentados, bem como boa parte dos F-5.  Em relação aos AMX, o Professor Luiz Reis escreveu outro excelente artigo, o “DOSSIÊ: SITUAÇÃO DE TODOS OS A-1 AMX DA FORÇA AÉREA BRASILEIRA”, em que explana o estado crítico desta plataforma na FAB.

Hoje em dia, a FAB só opera um punhado de F-5 e AMX, com vários gaps (“buracos”) em suas capacidades. Até o momento, só se confirmou a aquisição de 40 unidades do Gripen, e dado o cenário geopolítico e econômico atual e projetado para os próximos anos, é no mínimo questionável se o Brasil de fato vai conseguir adquirir mais unidades do Gripen para equipar adequadamente a FAB.

A solução, ainda que temporária, para cobrir os gaps seria adquirir caças usados. A FAB, inclusive, adquiriu alguns Mirage 2000 para cobrir os gaps causados pelo atraso do FX, mas acabou por aposentá-los após um curto período de operação, entre 2005 e 2013.

Caso a FAB decida recorrer ao mercado de caças usados, o F-16 seria um forte concorrente, não apenas por suas capacidades bastante interessantes, mas também pela grande quantidade de células disponíveis nos EUA e em outros países que estão substituindo seus F-16 pelos F-35.

Será que o Brasil poderia se tornar mais um usuário do F-16? Só o tempo dirá!

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