TUDO SOBRE DEFESA

Produzimos conteúdos sobre História Militar, Estratégia, Defesa e Geopolítica

O Hamas está sendo questionado pelos próprios árabes?

A Operação Espadas de Ferro, que é como Israel designou a resposta militar contra o Hamas após os terríveis ataques terroristas do Sábado Negro, 7 de outubro de 2023, vem causando um número considerável de vítimas entre os palestinos, além de ampla destruição e um número imenso de pessoas que foram obrigadas a fugir de casa.

Neste cenário terrível, é grande o número de pessoas que culpam Israel pela situação.

Entretanto, um fato importante é que também cresce o número de palestinos que culpam o Hamas pela situação.

Ahmed Fouad Alkhatib é um palestino da Faixa de Gaza que atualmente mora nos EUA.

Nos parágrafos a seguir, ele traz uma série de pensamentos de palestinos em relação ao Hamas. Não vamos fazer juízo de valor sobre o conteúdo, vamos apenas fazer uma tradução e adaptação das palavras de Ahmed.


Acabei de ouvir uma discussão ao vivo no Twitter em árabe, organizada por vários dissidentes e ativistas palestinos, muitos de Gaza, intitulada: “Perspectivas de Gaza sobrepujam as opiniões dos Mujahideen do Twitter”. Eles criticaram o Hamas e ofereceram opiniões sobre a guerra em Gaza.

[N.T.: Mujahideen é um termo bastante utilizado no islã para se referir aos mártires, aqueles que morrem na jihad, ou “guerra santa”]

Pontos-chave das discussões:

Facções psicopáticas dentro do Hamas, lideradas por Sinwar e al-Deif, lançaram o ataque em 7 de outubro pensando que o Irã, milícias xiitas e o Hezbollah lançariam uma guerra regional total contra Israel e/ou seus aliados. Em vez disso, o grupo foi deixado para se defender por conta própria; seus apoiadores deram apoio tênue.

[N.T.: Yahya Sinwar e Mohammed al Deif são os principais líderes do Hamas, e fervorosos proponentes da “resistência”, ou seja, ataques violentos e indiscriminados contra judeus em Israel e no mundo] 

A liderança política do Hamas, que se encontra fora de Gaza, não foi informada sobre o ataque iminente, em parte devido à competição interna pelo poder, deixando o grupo lutando para emitir mensagens coerentes e unificadas para justificar o 7 de outubro e articular um desfecho desejado.

Ironicamente, a liderança política do Hamas agora apoia acordos que são praticamente idênticos aos que Arafat, ANP e OLP já tinham na mesa há 30 anos, ou seja, um Estado palestino nas fronteiras de 1967, com o Hamas finalmente reconhecendo que um Estado palestino teria que viver ao lado de um Estado judeu, ou seja, Israel.

[N.T.: Autoridade Nacional Palestina e Organização para a Libertação da Palestina são facções políticas e terroristas dos palestinos, rivais do Hamas, que atualmente governam a Cisjordânia]

Isso levanta uma questão condenatória que muitos estão fazendo: qual é o objetivo da violência e guerras do Hamas nas últimas décadas, especialmente nos últimos 17 anos em Gaza? Todas as mortes e destruição não trouxeram absolutamente nenhum ganho, conquista ou resultado tangível para os palestinos.

Em vez de ser um componente viável do projeto nacional palestino, o Hamas tomou a pior decisão estratégica possível, que foi se alinhar a apoiadores sectários assassinos como Irã, Assad da Síria e o Hezbollah, além dos parceiros nefastos da Irmandade Muçulmana.

Mais prejudicial ainda à causa palestina foi o fato de que o Hamas deu acesso indevido ao Catar e, nos últimos anos, à Turquia, a arquivos e questões-chave, prejudicando Gaza, minando a unidade palestina, fortalecendo fins políticos estreitos e fortalecendo aspirações expansionistas islâmicas da Irmandade Muçulmana.

A resistência armada do Hamas é sem objetivo, inútil, sem sentido e politicamente sem rumo; o grupo usa propaganda habilidosa para vender ilusões e “pornografia da resistência” para seu povo e esconder seus fracassos e papel na aniquilação de Gaza por meio de seus cálculos errados e decisões ruins.

Se o Hamas soubesse a extensão do dano que recairia sobre seu povo, provavelmente não teria lançado o ataque em 7 de outubro.

Independente disso, o grupo ainda tem a responsabilidade de retirar seu povo da guerra, libertando reféns israelenses, com seus líderes saindo da Faixa de Gaza ou até mesmo se desarmando.

Apesar de toda sua corrupção, incompetência e impotência, a Autoridade Palestina tem apresentado em grande parte um saldo positivo para o seu povo, e sem ela, o projeto nacional palestino se desintegraria. A AP agiu corretamente ao evitar que a Cisjordânia fosse envolvida na violência.

De modo geral, os “Mujahideen do Twitter” e entusiastas do Hamas, são mal informados, equivocados, ignorantes, carentes de informações e aplaudem de maneira inconsciente a resistência armada. Eles não conseguem entender que as ações do Hamas levaram a perdas desnecessárias de vidas e terras, ou seja, o oposto de libertação.

É fácil para o Hamas e entusiastas da “resistência” ou “Mujahideen do Twitter” na Cisjordânia, no mundo árabe e muçulmano e em países ocidentais fazer vista grossa para a crueldade e a violência do Hamas em relação ao seu próprio povo em Gaza e como isso serviu aos interesses extremistas israelenses.

Os “Mujahideen do Twitter” não experimentaram a vida sob o Hamas e o que isso trouxe: mortes e péssima qualidade de vida, além da repressão social, religiosa e política. Muitos que se dizem Pró-Palestina escolhem ignorar vozes de Gaza que se opõem à resistência inútil.

O Hamas fez uma pesada lavagem cerebral em toda uma geração de palestinos, fazendo-os acreditar em slogans e retóricas vazios de resistência, enquanto líderes do grupo enriqueceram, enfraqueceram a causa de seu povo, serviram a jogadores regionais desprezíveis e trouxeram repetidos desastres a Gaza.

A desastrosa guerra em andamento mudará para sempre a paisagem social e política de Gaza, marcada por destruição e 70.000 baixas entre mortos, feridos e desaparecidos. O povo de Gaza culpará para sempre o Hamas, que deve ser responsabilizado e nunca mais autorizado a apostar com as vidas do seu povo.

[N.T.: embora os números de vítimas sejam fornecidos pelo Hamas e sua veracidade seja no mínimo questionável, a triste realidade é que de fato houve muitas vítimas civis e ampla destruição na Faixa de Gaza]

Outra mentira do Hamas para justificar por que atacou em 7 de outubro é a alegação de que o assalto foi “preventivo”, porque “Israel ia atacar a Faixa de Gaza”, uma completa mentira. Antes do ataque, a Faixa de Gaza era demonstravelmente uma baixa prioridade para Israel em relação à Cisjordânia e ao Irã.

O que eu apontei acima são os pontos de vista de verdadeiros moradores da Faixa de Gaza, comunicados em árabe, muitos dos quais já foram presos pelo Hamas e perderam numerosos membros da família na guerra atual.

Por favor, considerem o que estão dizendo.

Published by

Uma resposta para “O Hamas está sendo questionado pelos próprios árabes?”.

  1. […] Publicamos, recentemente, um artigo em que Ahmed Fouad Alkhatib, um palestino que nasceu e morava na Faixa de Gaza, mas atualmente mora nos EUA, destilando pesadas críticas contra o Hamas. […]

    Curtir

Deixe um comentário