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“Armas Frankenstein” na Guerra da Ucrânia

Aquele que é considerado o primeiro livro de ficção científica, “Frankenstein ou o Prometeu Moderno”, de Mary Shelley, conta como o Dr. Victor Frankenstein criou um monstro, chamado apenas de “a Criatura”, juntando partes anatômicas obtidas do necrotério e do açougue da região. A Criatura ganhou vida por meio de uma fórmula de alquimia.

Com o tempo, o termo Frankenstein passou a ser usado não só como o nome da Criatura, mas também para qualquer máquina em que se misturem partes de origens diferentes.

Em inglês, o termo “Franken-gun” é bastante usado nesse sentido, e se refere a armas improvisadas, geralmente combinando partes de outras armas, ou até mesmo partes que não sejam de armas.

Réplica da AN/M2 Stinger, uma das mais famosas frankengun da História. Ela foi criada a partir de uma metralhadora originalmente feita para aviões, e adaptada para uso de infantaria durante a Segunda Guerra Mundial.

Na Ucrânia, assim como aconteceu em quase todos os conflitos ao longo da História, estamos vendo várias Franken-guns surgirem, com os dois lados fazendo valer o ditado popular: “a necessidade é a mãe da invenção”.

ARMAS OCIDENTAIS EM AERONAVES SOVIÉTICAS

A integração e a homologação de armas com veículos lançadores geralmente é um processo muito complicado e caro, sendo frequentes os problemas.

É preciso fazer com que arma e aeronave “conversem” entre si, de tal forma que o míssil possa receber informações da aeronave e também passar informações do tipo “estou pronto para o disparo” ou “estou com problemas”.

Por isso, é muito comum que a integração de um míssil a um caça leve alguns anos.

Mas a Ucrânia não teria esse tempo, nem os códigos-fonte das aeronaves, então surgiu a ideia de fazer “Franken-guns”, combinando armas ocidentais e aeronaves soviéticas.

O termo foi aplicado pela primeira vez na Ucrânia quando ficou evidente o uso de armas como os mísseis americanos AGM-88 HARM.

Como a Ucrânia, até agora, não opera caças ocidentais, começaram a surgir questionamentos sobre a forma de disparo. Algum tempo depois, porém, as próprias FFAA (Forças Armadas Ucranianas) anunciaram que os mísseis foram disparados a partir de caças da era soviética, principalmente os Mig-29.

Depois disso, surgiram ainda outras armas disparadas a partir de outras aeronaves, como os Su-24 e Su-27. Despistadores ADM-160 MALD, bombas guiadas da família JDAM e mísseis de cruzeiro como o Storm Shadow britânico e sua versão francesa SCALP-EG – todas essas armas já foram usadas na guerra.

Isso só é possível porque as armas usadas até agora podem ser disparadas de forma pré-programada, ou então com orientação automática, com a arma dispensando informações da aeronave lançadora.

OUTRAS ARMAS IMPROVISADAS

Os “drones” (ARP, aeronaves remotamente pilotadas) foram adaptados para usos armados, tanto lançando bombas como sendo eles mesmos as armas, uma espécie de “drones kamikaze”.

Drone kamikaze ucraniano

Caminhões e outros veículos também foram improvisados como armas, principalmente levando foguetes, metralhadoras e canhões.

Mas o uso mais impressionante das Franken-guns foi na defesa aérea.

“FRANKEN-SAM”

Os SAM (mísseis superfície-ar) são fundamentais na defesa aérea, especialmente no caso da Ucrânia, que está em grande desvantagem em relação ao poder aéreo.

No entanto, os incessantes ataques russos, usando não apenas aeronaves tripuladas, mas também drones, drones kamikaze e mísseis, impõem um enorme desafio às defesas ucranianas, forçando-as a inovar para cumprir suas funções.

Os sistemas de mísseis ucranianos, na maioria, são da era soviética, e os mísseis em si ou já acabaram ou estão em números reduzidos, e não são produzidos pelos países que estão apoiando a Ucrânia.

A única solução possível foi estabelecer os “Franken SAM”, combinando projéteis ocidentais com os TEL (transportadores, eretores, lançadores) e TELAR (TEL com radar) soviéticos.

A primeira combinação foi usar os TELAR soviéticos Kub junto com SAM navais ESSM (que é a imagem de capa). A integração do míssil com o TELAR foi simplificada pelo fato de que o radar do Kub apresenta características bem semelhantes às do radar do ESSM.

TELAR do Buk com mísseis ESSM

Embora ainda não haja confirmação de fontes independentes, há relatos de que o suposto abate dos aviões russos Il-22 e A-50 foi feito por um sistema de defesa aérea ucraniano, que combina mísseis do sistema americano Patriot com radares do sistema soviético S-300.

CONCLUSÃO

A necessidade é a mãe da invenção.

Houve inúmeras armas improvisadas ao longo da História, com algumas delas sendo muito bem-sucedidas, como a bomba GBU-28 “Bunker buster” durante a Guerra do Golfo de 1991.

Para o Brasil, fica a lição: é fundamental ficar atento às oportunidades.

Em tempos de paz, pode-se conseguir desenvolver novas capacidades com redução de custos e/ou prazos.

Mas em tempos de guerra, pode ser a diferença entre vitória e derrota!

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