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Qual será a resposta israelense aos ataques iranianos?

Na noite de ontem, 13 de abril de 2024, o Irã lançou um imenso ataque contra Israel, com mais de 300 armas partindo do seu território. Estes ataques incluíram armas como TBM (mísseis balísticos táticos), MRBM (mísseis balísticos de médio alcance), “drones kamikaze” (sistemas aéreos remotamente pilotados de uso único) e mísseis de cruzeiro lançados a partir do Irã, além de foguetes, drones e outras armas lançadas por aliados iranianos como o Hizballah do Líbano e os houthis do Iêmen.

Embora Israel tenha, graças às suas avançadas defesas e colaboração de outros países, conseguido abater praticamente todas estas armas, muitas delas ainda longe do território israelense, muitos analistas consideram que Israel não só deve como vai responder – afinal de contas, os estragos foram limitados pelas excelentes defesas israelenses, não porque o Irã não tenha atacado com fúria.

Quais são as opções que Israel tem para responder? E qual deveria ser a intensidade da resposta israelense, de forma a evitar uma escalada da situação?

LIMITAÇÕES IRANIANAS E ISRAELENSES

Uma possibilidade é tentar atrasar o programa nuclear iraniano, algo que Israel vem fazendo há muitos anos, e agora tem uma oportunidade de atacar diretamente tais instalações, até porque o Irã tentou atingir as instalações nucleares israelenses em Dimona.

E embora o Irã tenha fortificado várias de suas instalações nucleares, nem todas são protegidas.

Algumas das instalações nucleares iranianas

As instalações de produção de yellowcake em Ardakan e Bandar Abbas são identificadas como vulneráveis devido à sua construção acima do solo. O yellowcake é um derivado de urânio, fundamental no processo de enriquecimento, portanto inutilizar tais instalações teria um impacto direto no programa nuclear iraniano.

Yellowcake, um composto à base de urânio, fundamental no processo de enriquecimento. Ele geralmente é moído e utilizado como um pó amarelo

As instalações de hexafluoreto de urânio (UF6) e as instalações de fluoreto de hidrogênio (HF) são consideradas elementos críticos do ciclo de combustível nuclear do Irã e são igualmente vulneráveis a ataques de drones. O UF6 , um gás, é outro composto intermediário fundamental no enriquecimento de urânio, e o HF é utilizado para obtenção de UF6.

A Planta Piloto de Enriquecimento de Combustível e a Planta de Enriquecimento de Combustível em Natanz são consideradas críticas e têm sido alvo de ciberataques, explosões e sabotagem.

Outra limitação importante é que o Irã, ao contrário de Israel, não tem sistemas de defesas contra mísseis balísticos, da mesma categoria do Arrow ou do David’s Sling. Ou seja, mesmo um pequeno ataque israelense com tais armas provavelmente teria 100% de sucesso. Israel conta com avançados sistemas contra mísseis balísticos.

Pelo lado de Israel, um problema grave é o fato de muitas instalações nucleares do Irã terem sido feitas de modo altamente reforçado, inclusive sob montanhas, o que faz com que sejam altamente resistentes a ataques convencionais.

Ao contrário dos EUA, Israel não tem bombardeiros pesados como os B-52, B-1 e B-2, que são capazes de levar as gigantescas bombas GBU-57A/B MOP, de 14 toneladas, cuja missão é justamente lidar com alvos tão reforçados.

Outro problema de Israel é que não é possível para eles atacar o Irã sem invadir o espaço aéreo de outros países. A Jordânia colaborou com a defesa israelense, até porque os mísseis iranianos cruzaram seu território, e infelizmente um deles caiu na capital Amã, causando a morte de 3 pessoas, mas isso não significa que os jordanianos iriam permitir que aeronaves israelenses sobrevoassem seu território num ataque direto ao Irã.

Mapa da região. Observe-se como a distância entre Israel e Irã é de 1.000 km, e para atingir alguns dos alvos mais importantes é necessário voar outros 1.000 km em território iraniano

Mesmo que a Jordânia permitisse um sobrevoo israelense, o Iraque dificilmente vai permitir, e mesmo que permitisse, os principais alvos no Irã se encontram a mais de dois mil quilômetros do território israelense, o que exigiria uma missão altamente complexa, envolvendo diversas operações de REVO (reabastecimento em voo). Israel conta com apenas um punhado de tankers (aviões-cisterna) KC-135, que provavelmente não poderiam apoiar mais do que umas 20 aeronaves de ataque.

Ademais, o problema não é apenas atacar, mas também resgatar pilotos abatidos ou acidentados. Israel não conta com aeronaves como o V-22 Osprey, que seriam as mais indicadas para operações de resgate a tais distâncias.

MV-22 Osprey

FInalmente, não se pode ignorar o fato de que uma resposta israelense, especialmente se for de alta intensidade, provavelmente resultará em uma resposta iraniana, o que pode resultar em uma guerra aberta entre os dois países, que certamente arrastaria outros países, não só da região, para o conflito.

LIÇÕES PARA O BRASIL

Por fim, mas não menos importante – e  Brasil em relação a isso?

Até o momento, de maneira acertada, o Brasil se mantém neutro, apesar de declarações infelizes e tendenciosas da nossa diplomacia.

Apenas uma das declarações infelizes da diplomacia brasileira em relação a Israel

Além das questões diplomáticas, o Brasil precisa aprender com tais situações.

O Irã lançou mais de 300 ataques contra Israel, e apenas 7 deles passaram – menos de 2%.

Nossas valorosas FFAA (Forças Armadas) não têm os meios para se defender de tal ataque, embora, felizmente e por enquanto, não precise.

Mas precisamos nos defender de outros tipos de ataques – por exemplo, aviões e submarinos do narcotráfico, invasões ao nosso território, garimpo ilegal…

Nossas FFAA precisam dos meios para tais missões.

Precisam, também, de meios de dissuasão e ataques a potências regionais. Embora, no momento, a Venezuela, por exemplo, não tenha pretensões contra o Brasil, possuem os meios para nos atacar, especialmente na Calha Norte, com grandes cidades como Manaus e Belém sob risco em potencial.

Precisamos de mais meios militares na região para dissuadir tais ações. O benefício adicional é que tais meios seriam úteis para lidar com narcotraficantes e outras ameaças na região.

Não podemos terminar este artigo sem lembrar, novamente, do grande Ruy Barbosa:

“O Exército pode passar cem anos sem ser usado, mas não pode passar um minuto sem estar preparado!”

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