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F-16 na Argentina – uma boa compra?

Esta semana, a Argentina assinou o contrato de compra de 24 unidades do F-16 MLU, todos eles aposentados pela Dinamarca, que os substituiu por F-35. Com isso, nossos vizinhos portenhos voltam a operar aviões supersônicos após uma década – com a aposentadoria dos seus Mirage III em 2015, os únicos caças operados pela FAA (Força Aérea Argentina) eram um punhado dos subsônicos A-4.

A-4AR Fightinghawk da FAA

Tentativas anteriores de aquisição de caças foram interrompidas pelo Reino Unido que, após a Guerra das Falklands de 1982, embargou a venda de quaisquer armas avançadas que tenham componentes britânicos. Para vender caças, é necessário obter autorizações de todos os países envolvidos na sua produção, ainda que o envolvimento seja restrito a determinadas partes.

A Martin-Baker, britânica, é uma das maiores fabricantes mundiais de assentos ejetores, e praticamente todos os caças avançados do mundo ocidental contam com pelo menos uma versão de assentos Martin-Baker.

Foi através deste mecanismo que a Inglaterra “matou” negócios com o Gripen sueco e o FA-50 sul-coreano.

Este impedimento chegou a um ponto em que a Argentina ficou a um fio de adquirir caças chineses ou russos – os JF-17 chineses e Mig-35 russos foram fortemente considerados antes da vitória do F-16.

Mas, no caso específico do F-16, a Inglaterra não pôde usar o truque de impedir a venda, já que o assento ejetor das versões mais antigas é da americana Collins, se bem que os últimos Block 70 usam assentos Martin-Baker.

Mas como os EUA conseguiram vender os F-16 à Argentina, apesar de haver componentes britânicos neles?

FORÇAS ARMADAS AMERICANAS E PROPRIEDADE INTELECTUAL

Embora os EUA, de modo geral, respeitem a propriedade intelectual de empresas privadas, existe um “jeitinho” quando o assunto são suas FFAA (Forças Armadas).

Para vender armas aos EUA, especialmente as mais avançadas, como caças, é necessário transferir pelo menos parte dos direitos de propriedade intelectual ao DoD (Ministério da Defesa dos EUA), além de ser necessário se associar a um fabricante americano.

O FMS é uma modalidade especial de venda de armas a países aliados, em que as próprias FFAA americanas adquirem as armas, geralmente com custos mais vantajosos devido aos volumes envolvidos, e revendem, muitas vezes a preços simbólicos, a países aliados.

Um exemplo é o nosso Super Tucano. Os EUA adquiriram alguns, para repassar a outros países, como o Afeganistão, através do Programa FMS. Os Super Tucano precisam ser feitos nos EUA pela Sierra Nevada Corporation, uma empresa americana que assinou contratos com a Embraer.

Super Tucano feito pela Sierra Nevada Corporation

Da mesma forma, os F-16, embora usem componentes que originalmente venham de outros países, emprega variantes americanas dos mesmos, ou obtém licenças especiais de fornecimento.

Desta forma, quando os EUA perceberam que a Argentina iria adquirir caças chineses – o negócio do JF-17 estava praticamente fechado – decidiu intervir.

Vários países europeus estão aposentando seus F-16 em favor do F-35, o que significa que há um número razoável de células disponíveis a custos bem acessíveis. Mas seria necessário contornar a oposição inglesa.

Ao que parece, os EUA conseguiram chegar a algum tipo de acordo com os ingleses, que não se opuseram formalmente à venda dos F-16.

FOI UMA BOA COMPRA?

A China ofereceu 12 caças JF-17 por US$ 664 milhões. O negócio com 24 F-16 ficou em aproximadamente US$ 300 milhões, embora o valor exato não tenha sido publicado.

Embora valores de compras militares de diferentes fornecedores sejam difíceis de comparar, não há como negar que a Argentina levou o dobro de caças pela metade do preço.

Considerando-se que a FAA só estava operando alguns A-4, a quantidade de células de fato importa muito.

Outro ponto que não está muito claro em relação à proposta chinesa é quantas e quais armas estariam inclusas no negócio. Falamos sobre algumas dessas armas neste artigo.

No caso dos F-16, sabe-se que serão fornecidos mísseis de combate aéreo AIM-9X Sidewinder e AIM-120D AMRAAM, que são as versões mais recentes.

F-16 com AIM-120 na ponta da asa e AIM-9X sob a asa

Embora não se saiba as reais capacidades das armas chinesas, é difícil imaginar que sejam consideravelmente superiores aos mísseis americanos, especialmente em se tratando das últimas versões.

Ademais, a versão adquirida pela Argentina, F-16AM/BM eram, originalmente, das mais antigas, mas passaram por um MLU (programa de atualização de meia vida). De forma simplificada, o MLU faz um overhaul (desmontagem praticamente completa da aeronave), deixando-a praticamente “zero quilômetro”.

Aproveitando o overhaul, os sistemas das aeronaves foram atualizados – radar, rádios, etc – para sistemas muito mais modernos. É bem provável que os F-16 argentinos sejam pelo menos tão bem equipados quanto os F-16 Block 52 chilenos.

Ou seja, embora sejam células originalmente feitas nos anos 1980, na prática são quase novas, e poderão operar sem maiores problemas por mais 15 anos.

Por fim, há informações de que os F-16 argentinos usarão a pintura “Have Glass”, uma versão simplificada da RAP (pintura absorvente de radar) usada em caças furtivos como o F-35.

F-16 da USAF com pintura Have Glass

Embora o uso de RAP não seja suficiente para fazer com que o F-16 se torne uma aeronave furtiva, com certeza é bastante útil, aumentando a capacidade de sobrevivência das aeronaves.

ISSO SIGNIFICA QUE A ARGENTINA AGORA ESTÁ MELHOR DO QUE O BRASIL?

Em uma palavra? Não. E há vários motivos para isso.

O primeiro deles é a própria quantidade. Embora 24 F-16 seja uma boa quantidade, são poucos para cobrir o segundo maior país da América do Sul. Ademais, embora as relações entre Brasil e Argentina sejam relativamente amistosas há muito tempo, as relações com o Chile não são tão calmas assim.

A fronteira entre Chile (laranja) e Argentina (verde) é bastante extensa

A fronteira entre Chile e Argentina tem 5.308 km de extensão. É a terceira maior fronteira do mundo e a maior da América do Sul.

Ilhas Falklands (chamadas Malvinas pela Argentina)

E a “questão das Malvinas”? Embora seja muito improvável que a Argentina vá tentar conquistar as Ilhas Falklands num futuro de curto a médio prazo, com certeza é algo em que eles pensam bastante. 24 caças é muito pouco para isso, além de outras fraquezas argentinas.

E aqui entra o segundo ponto. Como já dissemos em outros artigos, “uma andorinha só não faz verão”. Embora os F-16 sejam bons caças, não podem fazer tudo.

A Argentina dispõe apenas de um ou dois tankers (aviões cisterna) KC-130 Hercules bastante antigos para fazer REVO (reabastecimento em voo).

KC-130 Hercules argentino

Entretanto, os KC-130 usam o sistema drogue (mangueira flexível), perfeitamente adequado para reabastecer os A-4, mas os F-16 usam o sistema boom (haste rígida).

A FAA não tem nenhum tanker equipado com boom, e não há notícias firmes de que vão adquirir algum.

Sem REVO, o payload-range (combinação entre alcance e carga) do F-16 será bastante limitado, sendo no mínimo questionável se conseguiria alcançar as Falklands com carga razoável.

Além de não ter um tanker adequado para o F-16, a Argentina também não conta com nenhum sistema AEW (alerta aéreo antecipado). Tanto o Brasil quanto o Chile contam com excelentes aeronaves AEW.

Sem apoio de AEW, os F-16 serão obrigados a usar seus radares de forma ativa, isto é, emitindo, o tempo todo. Isso os deixa mais vulneráveis às ECM (contramedidas eletrônicas), além de deixá-los mais visíveis nos sensores de outras aeronaves.

Por fim, embora os Sidewinder e AMRAAM sejam excelentes mísseis, só podem ser usados contra outras aeronaves. Se a Argentina contemplar enfrentar outros países, vai precisar de outras armas, e até o momento não há notícias firmes de negociações neste sentido.

Entretanto, e o mesmo se aplica aos tankers, negociações militares frequentemente são conduzidas de forma bastante discreta, então não seria surpresa nenhuma se já houver negócios neste sentido.

Uma última consideração, mas que não está diretamente relacionada à FAA, a situação das FFAA argentinas é bastante precária. A Armada Argentina praticamente não tem meios de combate, nenhum submarino ativo, e poucas belonaves em condição razoável de operações.

CONCLUSÃO

Com base nas informações disponíveis, a compra dos F-16 foi bem acertada.

Além de cobrir uma lacuna preocupante, a FAA passará a contar com um dos caças mais avançados da América Latina.

Embora esta compra, por si só, não seja nem de longe suficiente para tornar a Argentina uma real ameaça para Brasil, Chile ou Reino Unido, com certeza é um passo na direção certa.

As FAA ainda tem muito a fazer se quiser recuperar sua posição de destaque que tinha na região nos anos 1970 e 1980, mas com certeza fez um golaço.

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