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Mísseis Spike, os possíveis algozes de Haniyeh

Em 31 de julho de 2024, em Teerã, um dos principais líderes do Hamas, grupo considerado terrorista por vários países e responsável pelos terríveis ataques contra civis israelenses em 7 de outubro de 2023, foi assassinado.

Embora as informações disponíveis até o momento sejam escassas e até mesmo contraditórias, as principais suspeitas são de que foi usado um míssil não determinado, provavelmente da família Spike, disparado a partir dos arredores do local onde estava hospedado.

Embora seja pouco provável que venhamos a saber os reais detalhes de tal missão, neste artigo vamos focar na família de mísseis Spike, uma das melhores da categoria e um grande sucesso internacional de vendas.

Spike NLOS, a variante que provavelmente foi usada na missão

HISTÓRIA

Um dia depois que a independência de Israel foi chancelada pela ONU em 1948, numa sessão presidida pelo chanceler brasileiro Oswaldo Aranha Bandeira de Melo (que até hoje é querido em Israel), estourou a Guerra da Independência, que durou quase um ano.

Depois disso, além das grandes guerras em 1956 (Guerra de Suez), 1967 (Guerra dos Seis Dias) e 1973 (Guerra do Yom Kippur), Israel teve ainda outras, como a prolongada Primeira Guerra do Líbano (1982-2000), a curta mas bastante intensa Segunda Guerra do Líbano (2006), várias batalhas contra o Hamas na Faixa de Gaza (2008, 2009, 2014, 2016, 2021 e a atual que vem desde 2023), várias outras operações menores, e ações ousadas como a Operação Ópera, em que a IAF (Força Aérea Israelense) neutralizou o reator nuclear de Osirak, nos arredores de Bagdá, onde Saddam Hussein preparava material para armas nucleares – as IDF (Forças de Defesa de Israel) têm estado em operações reais quase que continuamente nas últimas sete décadas.

As ações militares de Israel acabaram por resultar em frequentes embargos internacionais, inclusive à venda de armas, o que levou o país a desenvolver uma das mais avançadas indústrias bélicas do mundo.

Uma das famílias de produtos mais populares, com vários milhares sendo vendidos a dezenas de países, e que já viu extenso uso em combates reais, com excelentes resultados, é a Spike, composta por diversas PGM (“armas inteligentes”), disponíveis em várias versões e que podem ser disparadas de plataformas em terra, ar ou mar.

Spike Firefly

O Spike Firefly é bastante compacto

A Spike Firefly é uma arma da categoria ‘loitering munition’, um termo sem tradução exata para o português, mas que significa algo como ‘munição de voo persistente’, pois pode permanecer por um bom tempo sobre o campo de batalha, aguardando um alvo para atacar. Outro nome comum é ‘drone kamikaze’, pois além das funções regulares de um “drone” (observação e em alguns casos a designação de alvos), as loitering munitions ainda são mísseis.

Pequeno e compacto, o Spike Firefly é transportado num kit com 3 munições, unidade de comando (que parece um iPad) e baterias extras; o peso total é de 15 kg. Cada míssil leva uma ogiva de aproximadamente 350 g, e com um alcance máximo de até 1.500 m, inclusive acima ou ao redor de obstáculos como montanhas e edificações, aumentando significativamente a eficiência da Infantaria, especialmente em terrenos complexos como cidades e selvas.

Seria um excelente candidato para a eliminação de Haniyeh da forma como foi feita, pois não seriam necessários mais que um ou dois soldados a pé para a missão, mas os danos ao apartamento parecem extensos para a ogiva relativamente pequena da FireFly.

Spike SR

O Spike SR pode ser facilmente carregado por um soldado a pé

O Spike SR é outra opção interessante para a Infantaria, podendo ser bastante letal para alvos fixos, como casamatas, ou móveis, como carros de combate, inclusive em cenários urbanos. Apesar do alcance relativamente curto (50 a 2.000 m), o sistema é bastante compacto e leve, pesando apenas 10 kg, o que lhe permite ser carregado facilmente por soldados a pé, inclusive em ambientes difíceis como cidades.

É um míssil do tipo ‘dispare e esqueça’, que depois do lançamento não requer atualizações do operador., permitindo que fuja do local imediatamente após o disparo. O tubo de lançamento é descartável, e o curto tempo de preparo do míssil, de apenas 6 segundos após ligar, torna o Spike SR uma opção ideal para emboscadas.

Assim como a variante FireFly, a SR ideal para a missão, pois não seriam necessários mais que um ou dois soldados a pé para a missão, mas os danos ao apartamento parecem extensos para a ogiva relativamente pequena do SR.

Spike LR

Apesar de relativamente pequeno e leve, o Spike LR II tem um alcance considerável, de até 5,5 km a partir de lançadores em superfície

O Spike LR, atualmente na versão LR II, é a arma mais popular da família Spike, com mais de 27 mil unidades vendidas a quase 30 países. Disponível em versões anticarro e anti-estrutura (que também pode ser usada contra embarcações), o Spike LR já foi extensivamente utilizado em combate, com excelentes resultados. O Spike LR II pode ser controlado a partir de FOG (lançadores em terra) ou de links de rádio (lançadores aéreos).

O míssil em si pesa em torno de 13 kg, com o conjunto completo para lançamento a partir do solo sendo de aproximadamente 26 kg. Apesar de não ser tão leve como o SR, ainda pode ser levado por soldados a pé, mas no caso são necessárias equipes de 2 a 3 soldados.

Seu alcance pode chegar a 5,5 km (disparo a partir da superfície) ou 10 km (disparos a partir de aeronaves), e há versões disponíveis para uso por soldados a pé, a partir de veículos (blindados ou não). Além de capacidades como AI para facilitar o reconhecimento de alvos, o Spike LR II pode também usar os modos ‘fire and update’ e ‘man in the loop’, em que o operador pode controlar a trajetória do míssil, tornando-o ideal para cenários complexos como aqueles em que o risco de danos colaterais é elevado. Também tem versões para uso em RWS.

Não seria a versão mais indicada para a missão em questão, já que, dados seu tamanho e peso, mais as características do terreno, seria necessário utilizar um veículo para operá-lo com maior eficiência. Se você vai ter as complicações de usar um veículo, que o míssil seja da variante NLOS, da qual falaremos mais adiante.

Spike ER

O Spike ER II é um míssil com alcance considerável

O Spike ER II é ainda maior, mais pesado e com maior alcance quando comparado ao LR II, com o míssil em si pesando cerca de 34 kg e seu alcance é de até 10 km (lançado a partir da superfície) ou 16 km (lançado a partir de aeronaves).

Sendo bem maior que as demais versões, o ER é muito menos móvel, com o kit completo para disparo a partir do solo sendo de aproximadamente 92 kg, mas o alcance muito superior compensa isto.

Além das versões disparadas a partir de tripé ou de RWS (em que seu grande alcance o torna uma opção muito mais adequada em certos cenários que as demais versões), também está disponível para uso a partir de navios ou helicópteros, sendo que esta versatilidade chamou a atenção de várias Marinhas ao redor do mundo, pois o Sea Venom, míssil da MBDA que ainda está em desenvolvimento, só tem a versão lançada a partir de helicópteros no momento, e esta variante só pode ser utilizada contra navios, sendo que o Spike ER já pode ser usado contra alvos fixos e móveis em terra ou mar.

Assim como a LR, dadas as características da arma e da missão, seria necessário utilizar um veículo para operá-lo com maior eficiência, e caso se use um veículo é melhor usar a versão NLOS, da qual falaremos a seguir.

Spike NLOS

O Spike NLOS é um míssil versátil que pode ser lançado de veículos em terra, mar e ar

O Spike NLOS, originalmente chamado de Tamuz, foi desenvolvido como um FOG com guiagem EO a partir das experiências de combate na Guerra do Yom Kippur de 1973. Está disponível em versões lançadas a partir de aeronaves, veículos em terra e embarcações, sendo adotado pela Inglaterra com o nome de Exactor.

O Spike NLOS pesa em torno de 74 kg, com o seu alcance podendo chegar aos 32 km, com guiagem via link de rádio. Se lançado a partir de aeronaves, seu alcance pode chagar a 50 km.

É uma arma muito poderosa e versátil, apresentando excelentes resultados em conflitos, tanto nas mãos de Israel como do Azerbaijão, no recente conflito contra a Armênia.

A poderosa ogiva desta variante é a mais compatível com os danos vistos, o que indicaria uma missão de planejamento e execução mais complexos do que com as versões FireFly e SR, mas é também a versão que teria maior probabilidade de eliminá-lo.

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