Conforme anunciado pelo próprio Presidente Zelensky, a Ucrânia finalmente está colocando seus primeiros F-16 MLU em operação.
Mas o que, exatamente, é o F-16 MLU, e quais são suas capacidades?
História
Conforme apontamos neste artigo, o General Dynamics (atualmente Lockheed Martin) F-16 Fighting Falcon (geralmente apelidado “Viper”) é um caça com meio século de história, mas de maneira alguma é obsoleto.
Praticamente todos os operadores de F-16 implementaram algum tipo de melhoria nas suas aeronaves, fazendo com que o Viper seja, ainda hoje, um caça altamente versátil e poderoso.
Os países europeus que participaram da “venda do século” – Bélgica, Dinamarca, Noruega, Países Baixos (o principal dos quais é a Holanda) – tinham adquirido, originalmente, alguns dos primeiros F-16 que foram produzidos, modelos A (um lugar) e B (dois lugares).
MLU (Mid-Life Update) para o F-16
Quando o F-16 entrou em serviço em 1979, esperava-se que fosse substituído por um sucessor em 1999. No entanto, devido a razões econômicas e políticas, entre elas o final da Guerra Fria, o F-16 ainda não pôde ser substituído no Programa JSF, que veio a ser o Lockheed Martin F-35.
Para manter o mesmo nível de capacidades operacionais das aeronaves existentes nas próximas décadas, um extenso programa de modernização foi desenvolvido, conhecido como Mid-Life Update (MLU).
O projeto começou em 1989 com um estudo de viabilidade de dois anos sobre as possibilidades de modernização do F-16. Em maio de 1991, a fase de desenvolvimento começou e continuou até 1997. A estrutura do F-16 foi submetida a cargas mais pesadas do que o previsto em 1979, resultando em rachaduras inesperadas em algumas das anteparas da estrutura.
Antes de uma aeronave ser submetida à modificação MLU, o estado atual da estrutura é examinado em um programa de integridade estrutural extenso (PACER SLIP). Nesse programa de modificação, todas as anteparas da aeronave são examinadas e reparadas, se necessário. Após o PACER SLIP, a aeronave poderá durar pelo menos mais 5000 horas de voo, completando uma expectativa de vida de 30 anos.
Inicialmente, cinco países participaram do Mid-Life Update: Bélgica, Dinamarca, Holanda, Noruega e Estados Unidos; os EUA se retiraram após a fase de desenvolvimento.
No total, 344 aeronaves foram submetidas ao MLU, excluindo Portugal e outros clientes.
Após o programa de modernização do MLU, o F-16 poderá competir novamente com os caças mais avançados do mundo. O aumento da expectativa de vida técnica e econômica justifica o custo do programa MLU.
Além do “reset” estrutural, o programa MLU envolve mudanças profundas nos aviônicos, incluindo o radar, habilitando os Viper a utilizarem as armas mais modernas. Ou seja, os F-16 MLU, apesar de terem sido originalmente feitos ao longo das décadas de 1970 e 1980, são aeronaves bastante modernas.
F-16 MLU na Ucrânia

Os 80 F-16 MLU prometidos para a Ucrânia, até agora, vieram da Bélgica, Dinamarca, Noruega e Países Baixos, que estão substituindo o modelo pelos F-35. Esses 4 países vão selecionar as células que serão enviadas. As células então vão passar por uma revisão detalhada, para só depois irem, de fato, à Ucrânia.
Conforme antevisto em diversas ocasiões por vários articulistas, a Ucrânia não vai receber as armas mais avançadas para seus F-16:
- Mísseis ar-ar de alcance além do visual (BVR) AIM-120C das variantes mais antigas, mas não os C8 e certamente não os D
- Mísseis ar-ar de alcance visual (WVR) AIM-9M e similares, mas não os X
- Mísseis ar-superfície (ASM) mais antigos, como AGM-84 Harpoon e derivados como o SLAM, mas não mísseis avançados como os AGM-158 JASSM
Armas já em uso, e que certamente serão usadas nos F-16, com maior eficiência do que até agora, com novas capacidades, por exemplo mudar de rota durante o voo:
- Mísseis anti radar (ARM) AGM-88 HARM das versões mais antigas, provavelmente não incluindo a versão E mas definitivamente não a versão G
- Despistadores (‘decoys’) da família ADM-160 MALD, mas não da variante C, com capacidade de efetuar interferência eletrônica
- JDAM e JDAM-ER
- Mísseis como os SCALP e Storm Shadow, que embora não tenham sido oficialmente integrados aos F-16, poderiam ser usados neles
Entretanto, eles estão equipados com sistemas avançados, como o sistema defensivo PIDS (para detectar mísseis e auxiliar no sistema de guerra eletrônica) e capacetes com sistemas de miras JHMCS.
A Argentina fechou, recentemente, um acordo para receber alguns F-16 MLU. Os Viper argentinos serão de uma iteração mais recente do MLU, que deve incluir radares mais avançados com AESA (antena de varredura eletrônica ativa), além de armas ar-ar mais avançadas, como os AIM-9X e AIM-120D.
Entretanto, é questionável se as armas ar-superfície serão melhores, inclusive porque algumas delas, como o Storm Shadow, vêm da Inglaterra, que sanciona vendas de armas para os argentinos.
Sistemas auxiliares
Um fator essencial no poder aéreo moderno, além dos próprios caças, são sistemas auxiliares, como os tankers (aviões cisterna) e AEW (aviões de alerta antecipado).
A VKS (Força Aérea da Rússia) conta com um número muito limitado de tais sistemas, o que limita seu poder aéreo sobre a Ucrânia, o que explica o porquê de os ucranianos ainda conseguirem usar seu poder aéreo.
Entretanto, a Ucrânia não dispõe de nenhum dos dois tipos de sistemas, e isso vai limitar suas possibilidades de operações com os F-16.
A Suécia se comprometeu, em maio de 2024, a fornecer duas aeronaves Saab 340 AEW, mas a entrega dos mesmos, caso realmente ocorra, não vai acontecer em poucos dias, o que significa que, no mínimo por alguns meses, os F-16 não poderão contar com este apoio.

Provável impacto na guerra
Inicialmente, os F-16 ucranianos ficarão limitados às funções de CAP (Patrulha Aérea de Combate) nas principais cidades, ajudando nas defesas contra os ataques russos; os AIM-120 e AIM-9 serão fundamentais nestas missões.
A Ucrânia não vai receber seus 80 F-16 de uma vez, mas vão chegar “a conta-gotas”, como várias das armas que foram enviadas até o momento. Há várias razões para isso; uma das principais é que adquirir armas não é um processo simples, do tipo “comprei no MercadoLivre, chegou em poucos dias e já estou usando”.
O processo é complexo, e além das revisões que mencionamos anteriormente, é necessário treinar não apenas pilotos, mas também mecânicos, armeiros, controladores de voo… E também preparar a infraestrutura necessária para tudo isso. Tudo isso leva tempo, e é natural que a eficiência dos F-16 ucranianos seja relativamente baixa, pelo menos no início das operações.
Mas ainda que a UAF (Força Aérea da Ucrânia) recebesse todos os F-16 e Saab 340 de uma vez, e ainda que tivessem a capacidade de operar todas as aeronaves com suas plenas capacidades, o número é insuficiente para conquistar e manter a superioridade aérea ao longo de todo o seu espaço aéreo.
A Ucrânia é um país relativamente grande, e a VKS dispõe de um número relativamente elevado de aeronaves, portanto seria necessário a UAF dispor de um número bem maior de F-16, apoiados por um número bem maior de AEW, para cobrir efetivamente o espaço aéreo ucraniano.
Ademais, a Rússia conta com o poderoso míssil R-37, com alcance alegadamente superior a 200 km, o que dificulta muito o combate contra seus caças. O AIM-120D teria alcance suficiente para contrapor o R-37, mas dificilmente a UAF irá recebê-los.
Os AEW da UAF vão aumentar significativamente a eficiência dos seus caças, e por isso é certo que serão alvos prioritários, portanto boa parte dos F-16 terão que cumprir a função de escolta deles, impactando ainda mais sua disponibilidade.
Ao mesmo tempo, os F-16 podem não só utilizar com mais eficiência as armas que a Ucrânia vem recebendo, mas também poderá usar novas armas, como os AIM-9 e AIM-120, além de armas ar-superfície como os AGM-84, permitindo cumprir missões e atacar alvos que até agora eram impossíveis.
Conclusão
Embora os F-16 não possam mudar a realidade da guerra, eles vão causar muitos problemas aos russos, aumentando significativamente as capacidades da UAF.
Os F-16 MLU são muito mais modernos e capazes do que os caças e caças-bombardeiros ora em serviço com a Ucrânia – Mig-29, Su-27 e Su-24 – e certamente vão cumprir missões e atacar alvos que a Rússia hoje considera inatingíveis. Caso os AEW cheguem relativamente rápido, esse impacto será ainda maior.

Embora não sejam numerosos o bastante para conquistar o domínio dos céus na Ucrânia, não estejam equipados com as armas mais modernas e nem contem com apoio AEW realmente efetivo, os Viper ucranianos têm tudo para causar muita dor de cabeça aos russos.


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