Recentemente, publicamos um artigo analisando a perda de um F-16 ucraniano. Mencionamos que as linhas entre combate e acidente, entre um evento tático e uma arma de informação, estão cada vez mais tênues. A capacidade de uma força aérea de gerenciar riscos assimétricos, adaptar-se a mudanças tecnológicas exponenciais e dominar a narrativa global será tão crucial para a vitória quanto sua capacidade de controlar os céus.
Como lidar com ameaças de baixo custo?
Israel acabou de derrotar o Irã em una curta, mas extremamente intensa, guerra de 12 dias. Um dos pontos que chamou a atenção na Operação Leão Ascendente foi justamente o elevado custo que armas relativamente simples, como os VANT (Veículos Aéreos Não Tripulados, popularmente conhecidos como “drones”), podem impor ao defensor. Israel, inclusive, é um dos países que mais sofrem tais ataques, inclusive por parte de autores não estatais como Hamas, Hizballah e os houthis do Iêmen.

Um exemplo primoroso desta tendência que, apesar de não ser nova, está ganhando muita força em tempos recentes, é o Shahed-136 iraniano. Embora não seja tão grande (seu peso total é de apenas 200 kg), ele é capaz de levar uma ogiva de 50 kg a incríveis 2.500 km. Embora definir o custo de qualquer sistema militar seja uma tarefa extremamente complexa, estimativas sugerem que ele pode ser construído em larga escala por aproximadamente 10 mil dólares a unidade, um valor excepcionalmente competitivo ao se considerar que pode causar bilhões de dólares em prejuízos (como no ataque às refinarias sauditas ARAMCO), ou então custar centenas de milhares de dólares para ser abatido (estima-se que cada míssil IRIS-T SL custe mais de meio milhão de dólares, e geralmente são lançados 2 ou mais por alvo).
Parece provável que soluções de baixo custo, como DEW (armas de energia dirigida), usar drones para abater os drones inimigos, armas portáteis, “flak” (artilharia antiaérea, AAA), foguetes guiados e mísseis de baixo custo, sejam eficazes contra ameaças aéreas assimétricas, como drones e pequenas aeronaves.
Como se costume, há controvérsias: algumas estratégias, como armas de energia dirigida além de lasers, ainda estão em desenvolvimento, enquanto outras, como o A-29 Super Tucano, já são amplamente usadas, especialmente no Brasil contra o narcotráfico.

Outras Soluções de Baixo Custo
As DEW (armas de energia dirigida) – como os lasers, micro-ondas de alta potência e jammers de radiofrequência – drones contra drones, armas portáteis adaptadas, flak moderna, foguetes guiados como o APKWS e mísseis de baixo custo, incluindo projetos inferiores aos MANPADS (mísseis superfície-ar portáteis, como o Strela soviético), oferecem alternativas viáveis para combater ameaças aéreas, reduzindo custos operacionais.
Essas estratégias podem ser inspiradas em experiências como a do Brasil
DEW – Armas de Energia Dirigida
Enquanto os lasers de alta energia têm recebido muita atenção, outras formas de armas de energia dirigida, como as micro-ondas de alta potência (HPM), também estão sendo desenvolvidas para neutralizar drones.

Os sistemas HPM emitem pulsos de energia eletromagnética que podem danificar ou destruir os componentes eletrônicos dos drones, incapacitando-os sem impacto físico. Um exemplo notável é o sistema THOR (Tactical High-power Operational Responder), desenvolvido pelo Laboratório de Pesquisa da Força Aérea dos EUA, que pode desativar múltiplos drones simultaneamente com um único pulso.

Outra categoria são as armas de jamming (interferência) de radiofrequência (RF), como o Light Marine Air Defense Integrated System (L-MADIS), que podem interferir nas comunicações dos drones ou falsificar seus sinais GPS, fazendo com que percam o controle ou retornem à base. Essas tecnologias oferecem uma maneira não cinética de lidar com ameaças, reduzindo o risco de danos colaterais e o custo por engajamento, sendo particularmente úteis em cenários de saturação de drones.

Armas Portáteis e de Baixo Custo
Para engajar alvos aéreos de forma mais direta, sistemas portáteis como os MANPADS (Man-Portable Air-Defense Systems) são uma opção, embora seu uso contra drones possa ser economicamente questionável devido ao alto custo por disparo.

No entanto, adaptações e novos sistemas estão surgindo para tornar o engajamento de drones mais acessível. Por exemplo, o sistema Smart Shooter SMASH é um conjunto de miras e sistemas que são integrados a fuzis para melhorar a precisão contra alvos pequenos e rápidos, como drones, permitindo que soldados em terra neutralizem ameaças com munição convencional.

Além disso, jammers (interferidores) portáteis de drones, como o Skybeam, estão se tornando cada vez mais comuns. Esses dispositivos podem bloquear os sinais de controle dos drones, forçando-os a pousar ou a se desviar de sua trajetória. Essa abordagem é particularmente útil em ambientes onde a detecção e a neutralização rápida são necessárias, como em bases militares ou eventos públicos.

Artilharia Antiaérea e Foguetes Guiados
A artilharia antiaérea, ou “flak,” tem sido uma ferramenta tradicional para defesa contra aeronaves. Embora menos eficaz contra jatos modernos, pode ser adaptada para combater drones e pequenas aeronaves. Sistemas modernos utilizam canhões automáticos com munição de proximidade, que detonam próximo ao alvo, aumentando a probabilidade de acerto. O Phalanx CIWS, por exemplo, é um sistema de armas de proximidade que pode ser configurado para engajar drones, oferecendo uma camada adicional de defesa.

Foguetes guiados, como o APKWS (Advanced Precision Kill Weapon System), são outra solução econômica. Esses foguetes de 70mm, guiados a laser, podem ser lançados de várias plataformas, incluindo helicópteros e veículos terrestres, proporcionando precisão cirúrgica contra alvos pequenos a um custo relativamente baixo por disparo.

O APKWS é um sistema do tipo “add on”. Esta imagem explica como ele funciona. No topo, um foguete “burro”, ou seja, não guiado. A maioria destes foguetes são compostos pela ogiva (1) e motor (3). O APKWS (2) é instalado entre a ogiva e o motor, o que tanto permite utilizar os enormes estoques de tais armas, quanto se adaptar a novos modelos.
Como oos foguetes burros são armas relativamente baratas, e o próprio APKWS foi desenvolvido, desde o princípio, para ser relativamente barato, o conjunto final tem um custo comparável ao do Shahed-136.
Sua versatilidade os torna ideais para engajar drones ou pequenas aeronaves em movimento, especialmente em operações de patrulha.

Projetos de Mísseis de Baixo Custo
Boa parte dos drones apresentam um desempenho geral muito inferior ao de aeronaves tradicionais. O próprio Shahed-136, por exemplo, tem uma velocidade de cruzeiro é de aproximadamente 180 km/h.
Levando-se em consideração tanto o desempenho inferior quanto a necessidade de sistemas com custos mais acessíveis, vários projetos estão em desenvolvimento para criar mísseis de baixo custo, incluindo sistemas inferiores aos MANPADS em termos de desempenho, alcance e custo.
O drone Coyote, feito pela Raytheon e utilizado pelo Exército dos EUA, é equipado com um conjunto de sensor e ogiva para interceptar outros drones, oferecendo uma solução econômica para engajamentos de curto alcance.

Da mesma forma, o sistema Drone Dome de Israel combina radar, sensores eletro-ópticos e RF jamming para detectar e neutralizar drones, utilizando mísseis de baixo custo em sua camada final de defesa.

Além disso, há esforços para desenvolver mísseis ainda mais baratos, como o Peregrine da Força Aérea dos EUA, projetado para ser mais leve e econômico do que os mísseis ar-ar existentes, permitindo que caças carreguem mais unidades para engajar múltiplas ameaças. Como o Peregrine tem aproximadamente metade do comprimento do tradicional AIM-120 AMRAAM, é possível levar o dobro de mísseis nos apertados paiois de armas dos modernos caças stealth, como o F-22.

Esses projetos visam criar uma camada de defesa acessível, capaz de lidar com enxames de drones sem esgotar recursos financeiros.
Eo Brasil?
O Brasil tem uma longa história de uso de plataformas de baixo custo para combater ameaças aéreas, particularmente no contexto do narcotráfico. A Força Aérea Brasileira emprega o A-29 Super Tucano, uma aeronave de ataque leve, para patrulhar fronteiras e interceptar aviões ilegais, como os Cessnas usados por traficantes. O A-29 é capaz de operar em pistas curtas e não preparadas, equipado com metralhadoras e munições guiadas, permitindo engajamentos precisos com mínimo risco de danos colaterais.

Helicópteros também são fundamentais nessas operações, especialmente em áreas urbanas ou densamente povoadas. A Polícia Federal e outras agências utilizam helicópteros para perseguir suspeitos e interceptar atividades ilícitas, aproveitando sua capacidade de manobra em espaços confinados. Operações em favelas do Rio de Janeiro, por exemplo, demonstram como helicópteros podem monitorar e engajar alvos em ambientes complexos.

Além das plataformas aéreas, o Brasil integra sistemas de radar e procedimentos de interceptação para detectar e responder a voos não autorizados. Essa abordagem multifacetada garante uma cobertura eficaz do espaço aéreo, combinando vigilância, interceptação e, se necessário, engajamento, utilizando uma mistura de armas portáteis, como MANPADS em casos específicos, e foguetes guiados para operações mais amplas.
Lições para Conflitos Globais
A experiência brasileira ilustra como uma combinação de tecnologias e táticas de baixo custo pode ser eficaz contra ameaças aéreas assimétricas. Ao integrar aeronaves leves, helicópteros, sistemas de radar, armas de energia dirigida, jammers portáteis, artilharia adaptada, foguetes guiados e mísseis de baixo custo, as forças armadas podem criar uma defesa em camadas que é tanto econômica quanto eficiente.
Em cenários de conflito como o da Ucrânia, onde a saturação de drones e mísseis é uma tática comum, adotar uma estratégia similar pode ajudar a mitigar os custos operacionais enquanto se mantém a capacidade de resposta. A flexibilidade e adaptabilidade dessas soluções são cruciais, permitindo que as defesas se ajustem rapidamente a novas ameaças e táticas inimigas, inspiradas pelas práticas consolidadas no Brasil.
Conclusão: Uma Estratégia de Defesa Multi-Camada
À medida que as ameaças aéreas evoluem, a necessidade de soluções de defesa inovadoras e de baixo custo se torna cada vez mais premente. Combinando armas de energia dirigida, como lasers, micro-ondas de alta potência e jammers de RF, com armamentos portáteis, artilharia antiaérea moderna, foguetes guiados como o APKWS, mísseis de baixo custo e plataformas leves como o A-29 Super Tucano e helicópteros, as forças armadas podem construir uma defesa robusta contra uma variedade de alvos aéreos.
O exemplo do Brasil, com seu uso bem-sucedido contra o narcotráfico, oferece lições valiosas para nações enfrentando desafios similares. Ao priorizar a eficiência econômica sem comprometer a eficácia, é possível manter a superioridade aérea e a segurança do espaço aéreo em face de adversários que empregam táticas assimétricas.

Essa abordagem multifacetada não apenas preserva recursos valiosos, mas também assegura que as defesas permaneçam à frente das ameaças emergentes, garantindo a paz e a estabilidade em um mundo cada vez mais volátil.


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