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Censura com Alegação de Proteger Segredos Militares

O Paradoxo do Sigilo na Era da Conectividade

​Em um mundo marcado por rivalidades militares intensas, notavelmente entre os Estados Unidos e a China, e crescentes tensões em conflitos internacionais, a censura militar generalizada surge como um obstáculo anacrônico à transparência e à coesão social.

Enquanto a segurança global enfrenta desafios multifacetados que vão de disputas cibernéticas à erosão da vantagem militar tecnológica ocidental, práticas opacas revelam fragilidades estratégicas que transcendem o âmbito puramente militar. O ambiente estratégico atual, conforme destacado por relatórios como o Munich Security Report 2025, é definido pela “multipolarização” e por uma crescente polarização ideológica. Nesse cenário, a confiança pública e a robustez das alianças tornam-se ativos estratégicos essenciais.

​A narrativa em torno desta forma esdrúxula de censura militar não é mera anedota; ela reflete questões geopolíticas profundas. Em um momento em que think tanks como o Center for Strategic and International Studies (CSIS) analisam a necessidade urgente de inovação industrial para manter a vantagem de defesa, a escolha pelo sigilo desnecessário sobre a abertura construtiva torna-se uma desvantagem autoimposta.

Longe de proteger a defesa nacional, posturas opacas, especialmente quando aplicadas a informações já disponíveis publicamente, corroem a confiança popular, antagonizam a mídia especializada, que é vital para o debate democrático e, paradoxalmente, minam a própria análise militar estratégica que pretendem salvaguardar.

Este artigo explora o contexto histórico dessa abordagem, analisa suas manifestações atuais com foco em dinâmicas militares, contrasta posturas regionais opacas com a transparência doutrinária de outras potências e projeta as implicações futuras para a estabilidade planetária.

Contexto Histórico: As Origens da Opacidade Militar na América do Sul

​A censura militar tem raízes profundas na história da América do Sul, particularmente durante os regimes autoritários nas décadas de 1970 e 1980. Nesses períodos, as forças armadas, operando sob uma Doutrina de Segurança Nacional absurdamente abrangente, impunham restrições desnecessariamente amplas à informação. O sigilo não era, como deveria ser, uma ferramenta contra adversários externos, mas sim um mecanismo de controle social e repressão interna. Documentos históricos revelam que o conceito de “segredo” era frequentemente estendido a elementos culturais, jornalísticos e acadêmicos considerados “subversivos”, efetivamente tratando a própria população como inimiga e ameaça em potencial.

​O exemplo mais extremo dessa mentalidade foi a Operação Condor, uma colaboração secreta e transnacional entre as polícias secretas de múltiplos regimes militares sul-americanos. Documentos desclassificados confirmam que esta aliança foi formada para “rastrear” e “liquidar” oponentes políticos além das fronteiras nacionais, com o conhecimento de agências de inteligência ocidentais. O sigilo absoluto, protegido sob o manto da segurança de Estado, foi a ferramenta que permitiu a execução dessas operações e garantiu a impunidade dos perpetradores por décadas.

​Embora as democracias tenham sido restabelecidas, essa herança de opacidade persiste até hoje. A “cultura do sigilo” sobrevive dentro das estruturas burocráticas de Defesa, manifestando-se em decisões que priorizam o controle absoluto até mesmo sobre temas triviais, ao invés de colaboração e transparência. A lógica subjacente—que a informação é inerentemente perigosa e que o público civil é um vetor de risco—permanece. É essa mentalidade que prepara o terreno para interpretações absurda e desnecessariamente rígidas e ações desproporcionais, onde o aparato de segurança do estado é mobilizado para proteger “segredos” que, muitas vezes, nem sequer existem.

Análise Atual: A Anatomia de um “Segredo” Inexistente

​A persistência dessa mentalidade autoritária é vividamente exemplificada por um incidente ocorrido na Argentina em 2019, um caso paradigmático de censura esdrúxula. Na ocasião, a alfândega argentina confiscou e ordenou a destruição de um aeromodelo em escala 1/4, premiado internacionalmente, do treinador a jato IA-63 Pampa. A justificativa inicial para a apreensão, quando o construtor tentava exportar sua criação para a Europa, foi que o modelo representava uma violação de “segredo militar” e uma tentativa de exportar “material militar nacional”.

​A situação tornou-se ainda mais absurda quando a própria fabricante da aeronave real, a estatal Fábrica Argentina de Aviones (FAdeA), interveio. Em vez de esclarecer a natureza inofensiva do modelo, a FAdeA solicitou formalmente sua destruição, mas, segundo o construtor, a justificativa final deslocou-se do “segredo militar” para uma alegada violação de direitos autorais e de marca devido a um adesivo de 8 cm com o logotipo da FAdeA. O uso da alegação de segurança nacional como pretexto para o que não deveria passar de uma disputa de propriedade intelectual demonstra um abuso de poder, onde o aparato de Defesa do Estado é cooptado para fins corporativos, gerando estarrecimento na comunidade de entusiastas da aviação.

​A ironia central, que expõe a total falta de fundamento da alegação de “segredo militar”, é que os detalhes técnicos da aeronave real não só são públicos, como são ativamente divulgados pela própria FAdeA, na forma de material de marketing. As especificações técnicas que o aeromodelo supostamente ameaçava revelar estão disponíveis em brochuras oficiais e no website da FAdeA.​

Ou seja, o “segredo” que levou à destruição de um modelo civil inofensivo não apenas não existia, como era ativamente promovido pela própria entidade estatal que exigiu a censura!

Este incidente revela uma patologia institucional onde a segurança é invocada não para proteger informações sensíveis, mas para exercer controle, punir o entusiasmo civil e encobrir a incapacidade burocrática de discernir uma ameaça real de um hobby.

Contraste entre O Caso Pampa e o Caso Steve Jackson Games

​A lógica falha exibida no incidente do Pampa — onde autoridades de segurança equiparam, erroneamente, um item civil genuinamente inofensivo como uma ameaça existencial à segurança nacional — não é, em si, exclusiva da América do Sul. Um paralelo notável é o infame caso Steve Jackson Games v. Secret Service, ocorrido nos Estados Unidos em 1990. Naquela ocasião, o Serviço Secreto dos EUA invadiu os escritórios da Steve Jackson Games, uma editora de jogos RPG, e apreendeu manuscritos e computadores. A justificativa era que o suplemento de RPG GURPS Cyberpunk, então em desenvolvimento, era suspeito de ser um “manual para crime de computador”.

​A lógica das autoridades em ambos os casos foi idêntica: uma confusão fundamental entre a representação fictícia ou em escala (um jogo, um aeromodelo) e a capacidade real (hacking, espionagem industrial, espoionagem militar). No entanto, a resolução desses dois incidentes revela um contraste dramático nas culturas institucionais e na robustez dos sistemas de controle democrático.

​Nos Estados Unidos, o sistema demonstrou capacidade de autocorreção. A Steve Jackson Games processou o governo federal. Em 1993, um tribunal federal decidiu a favor da editora, declarando que a ação do Serviço Secreto havia sido “descuidada, ilegal e completamente injustificada” e concedendo indenização por danos. O caso tornou-se um marco para as liberdades civis na era digital e foi um catalisador direto para a fundação da Electronic Frontier Foundation (EFF) , fortalecendo a proteção da liberdade de expressão online. O abuso de poder estatal foi identificado e legalmente revertido.

​Em contraste, no caso argentino, o sistema validou o abuso de poder. A alegação de “segredo militar”, mesmo sendo um pretexto para uma disputa de direitos autorais , foi suficiente para justificar a destruição da propriedade privada. Não houve correção, apenas o dendosso e a execução de uma censura esdrúxula que destruiu o trabalho de um entusiasta. Isso demonstra uma fragilidade institucional persistente, onde o aparato de segurança opera sem freios eficazes contra interpretações absurdas de sua própria autoridade.

O Contraste Estratégico: Transparência como Doutrina de Poder nos Estados Unidos

​A postura de opacidade observada em nações sul-americanas, onde “segredos” são invocados para destruir um aeromodelo de um avião de treinamento cujas especificações são públicas , contrasta de forma absoluta com a doutrina de transparência praticada pelas forças armadas dos Estados Unidos. Longe de temer o escrutínio, os EUA utilizam a transparência radical—especialmente em falhas e acidentes—como uma ferramenta estratégica de poder, aprendizado e accountability.

​Primeiramente, os próprios fabricantes de defesa dos EUA, como a Lockheed Martin, publicam uma vasta gama de informações técnicas sobre seus sistemas mais avançados. Detalhes sobre o F-35 Lightning II e o F-22 Raptor , atualmente os caças mais avançados no serviço americano e provavelmente do mundo, são publicamente divulgados como parte do esforço de demonstração de capacidade e interoperabilidade com aliados e potenciais compradores. Onde a FAdeA publica dados do Pampa e depois os trata como “segredo de Estado” , os EUA publicam dados de caças de 5ª geração como fato corriqueiro.

​O teste decisivo, no entanto, reside na divulgação de falhas. As forças armadas dos EUA publicam rotineiramente Relatórios de Investigação de Acidentes (AIB reports) altamente detalhados e com mínima censura, disponibilizados ao público através de portais oficiais. Esta prática se aplica até mesmo aos seus ativos mais caros e sensíveis.

​Um exemplo é o F-22 Raptor, a principal plataforma de domínio aéreo. Quando um F-22 sofreu um incidente em 2020 na Base Aérea de Nellis, o relatório público da USAF não se limitou a fatos superficiais. Ele detalhou que a causa foi a “procedimentos de manutenção impróprios” e criticou abertamente a “cultura da unidade” por falhas na aplicação de avisos de segurança. Outros relatórios, como o de um acidente anterior, são igualmente escrutinados publicamente.

​Um exemplo ainda mais recente é o acidente com um F-35A em 28 de janeiro de 2025, na Base Aérea de Eielson, Alasca. Em agosto de 2025, a USAF divulgou o relatório de 39 páginas , que expôs publicamente detalhes embaraçosos e tecnicamente sensíveis:

  • A Perda: A destruição total da aeronave foi avaliada publicamente em $196.5 milhões.
  • A Causa Técnica: O relatório identificou a causa exata como “fluido hidráulico contaminado por água que congelou” nos trens de pouso.
  • A Causa Raiz: O documento expôs uma “falta de adesão aos procedimentos de manutenção” e “má manutenção de registros”, detalhando como barris hidráulicos foram armazenados incorretamente ao ar livre em condições úmidas.
  • Os Detalhes Operacionais: O relatório revelou que o piloto permaneceu no ar por quase uma hora em uma teleconferência com engenheiros da Lockheed Martin, tentando resolver a falha do trem de pouso, antes de ser forçado a ejetar.

​A divulgação desses detalhes—falhas de manutenção, erros de procedimento, discussões em tempo real—seria impensável sob a lógica da censura esdrúxula que impera nas Forças Armadas de vários países da América do Sul. Para a doutrina dos EUA, no entanto, a transparência não é uma fraqueza; é um mecanismo de fortalecimento. Ela força a accountability (responsabilização), garantindo que as falhas sistêmicas (como os procedimentos de manutenção em Eielson) sejam corrigidas. Ela promove o aprendizado coletivo em toda a frota global de F-35. E, mais importante, ela constrói confiança pública e de aliados, demonstrando que o sistema é robusto o suficiente para admitir e corrigir suas próprias falhas, em vez de tão frágil que se sente ameaçado por um aeromodelo.

Implicações Futuras: Os Custos Estratégicos do Isolamento

​A persistência da censura esdrúxula acarreta custos estratégicos significativos e diretos, especialmente no volátil cenário de segurança global atual. O que pode parecer um incidente burocrático isolado, como a destruição de um aeromodelo, é, na verdade, um sintoma de uma disfunção que gera três implicações negativas de longo prazo.

​A primeira e mais imediata implicação é a erosão da coesão civil-militar. As Forças Armadas, em uma democracia saudável, dependem fundamentalmente do apoio e da confiança da sua população. Análises sobre a militarização na América Latina apontam para uma relação historicamente tensa entre a sociedade civil e os militares. Ações como a do caso Pampa exacerbam essa tensão. Elas afastam, desnecessariamente, a população em geral das Forças Armadas. O incidente, que deixou a comunidade aeromodelista sul-americana estarrecida, transforma entusiastas da defesa, que deveriam ser os maiores defensores civis das instituições, em críticos alienados. Em vez de cultivar apoio, a opacidade gera medo e ressentimento, minando o capital social necessário para o apoio público em tempos de crise.

​A segunda implicação é o antagonismo desnecessário e contraproducente com a mídia especializada. Esta postura prejudica os próprios interesses das Forças Armadas. Como aponta uma análise da Military Review sobre o relacionamento entre militares e mídia, a interação eficaz é uma “paciência estratégica”. Quando as instituições militares tentam “controlar” a informação através da censura, em vez de se engajarem com transparência, a indignação provocada pelas alegações de censura irá sobrepor-se aos acontecimentos. O resultado do caso Pampa é um exemplo perfeito: em vez de a mídia especializada celebrar a engenharia argentina, promovendo a FAdeA sem custo nenhum, a história principal tornou-se a destruição absurda de um modelo. A instituição perdeu o controle da narrativa e sofreu um grave dano reputacional, que foi totalmente autoimposto – o infame “tiro no pé”.

​Finalmente, em escala global, essa opacidade tem implicações nas rivalidades militares EUA-China. O cenário de 2025 é definido por uma competição tecnológica e ideológica. A China é frequentemente criticada por sua opacidade militar e pela disseminação de narrativas que justificam o controle estatal. Os Estados Unidos, apesar de suas falhas, promovem a transparência (como nos relatórios AIB) como um valor central de aliança. Quando as nações sul-americanas adotam posturas de sigilo extremo, elas espelham o ethos de competidores autoritários, e não de parceiros democráticos. Isso mina a confiança, prejudica a interoperabilidade e isola essas nações de transferências de tecnologia e parcerias de defesa avançadas, que exigem um nível de abertura e accountability que a censura esdrúxula torna impossível.

Conclusão: Rumo a uma Transparência Estratégica

​A censura esdrúxula, como demonstrado pelo caso do IA-63 Pampa , revela-se não como uma ferramenta de defesa, mas como uma fragilidade estratégica. Ela é fundamentalmente baseada na premissa falha de que informações publicamente disponíveis, e até mesmo ativamente comercializadas pelos próprios fabricantes , constituem “segredos” de estado. Esta postura é uma relíquia de um passado autoritário que não serve aos interesses de uma nação democrática moderna.

​O contraste com a transparência radical praticada pelos Estados Unidos na divulgação de falhas de seus sistemas mais vitais, como o F-22 e o F-35 , é absoluto. A abordagem americana utiliza a abertura como um mecanismo para forçar a responsabilização, acelerar o aprendizado coletivo e solidificar a confiança pública e de aliados. Em contrapartida, a opacidade sul-americana, ao afastar a própria população e antagonizar a mídia especializada , gera desconfiança, isolamento e prejudica os próprios interesses institucionais que alega proteger.

​No complexo ambiente de segurança global atual, definido por rivalidades militares EUA-China e pela necessidade de inovação rápida , as Forças Armadas não podem se dar ao luxo de tratar seus próprios cidadãos como adversários. A verdadeira análise militar estratégica exige um equilíbrio maduro entre o sigilo operacional legítimo e a transparência democrática. A abertura construtiva não é uma ameaça à segurança nacional; ela é, e deve ser, um componente essencial dela.

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Uma resposta para “Censura com Alegação de Proteger Segredos Militares”.

  1. Avatar de Alexandre Fontoura
    Alexandre Fontoura

    Excelente artigo e reflexão. Jâ fui vítima algumas vez dessa cultura de “segredo” em situações que beiram o ridículo.

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