Três anos após o início do conflito que dividiu o Sudão em duas forças rivais, o país vive uma das maiores crises humanitárias da história recente. A guerra entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF, o exército regular liderado pelo general Abdel Fattah al-Burhan) e as Forças de Apoio Rápido (RSF, um grupo paramilitar comandado por Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti) não mostra sinais de fim. O que começou como uma disputa pelo poder em Cartum transformou-se em uma catástrofe que já afetou dezenas de milhões de pessoas e ameaça transbordar para países vizinhos.
As SAF são vistas como mais ligadas aos árabes do centro e do Nilo (a elite tradicional de Cartum), enquanto as RSF têm base forte entre árabes de Darfur. Os grupos não árabes (fur, masalit e zaghawa) frequentemente se alinham contra as RSF por causa das memórias da violência passada. A luta entre SAF e RSF, portanto, não é só entre dois generais: é também uma briga por recursos (ouro, petróleo, terras férteis e águas do Nilo) que se sobrepõe a divisões étnicas profundas. As duas forças, que foram parceiras no golpe de 2019 e no de 2021, viraram inimigas mortais quando o acordo de integração militar ameaçou o império paralelo das RSF. O que começou como disputa interna explodiu em guerra aberta — e o preço está sendo pago pelos civis sudaneses, especialmente nas regiões já feridas como Darfur.
Este artigo analisa o conflito com foco principal nas questões humanitárias — fome, deslocamentos e violência contra civis — e também nos riscos de “spillover”, ou seja, o transbordamento dos efeitos para nações como Chade, Sudão do Sul, Etiópia e Egito.
Nosso objetivo é ajudar nossos estimados leitores a compreender por que essa guerra “esquecida” importa para a estabilidade de toda a África Oriental e do Chifre da África.
O contexto breve: como tudo começou e onde estamos hoje
A guerra eclodiu em 15 de abril de 2023, quando as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), um grupo paramilitar liderado por Mohamed Hamdan Dagalo (conhecido como Hemedti), tentaram tomar o controle do poder em Cartum e em outras cidades importantes. Essa ação marcou o início de um conflito aberto entre as RSF e as Forças Armadas Sudanesas (SAF), o exército regular comandado pelo general Abdel Fattah al-Burhan. O estopim imediato foi a tensão crescente sobre a integração dos paramilitares das RSF ao exército regular: os líderes das SAF queriam uma fusão rápida (em cerca de dois anos), enquanto Hemedti exigia um prazo muito mais longo (até dez anos) para preservar a autonomia e o poder econômico de sua força. O que parecia uma disputa técnica sobre hierarquia militar era, na verdade, uma briga profunda por controle do Estado.
Para entender o contexto, é preciso voltar alguns anos: o Sudão saía de décadas de ditadura sob Omar al-Bashir, que governou o país com mão de ferro de 1989 até 2019. Bashir chegou ao poder em um golpe militar e manteve o regime com apoio de islamistas, do exército e de milícias. Seu governo foi marcado por guerras civis, corrupção e isolamento internacional. Em dezembro de 2018, grandes protestos explodiram por causa da crise econômica — falta de alimentos, inflação galopante e cortes de subsídios. O que começou como revolta contra o custo de vida rapidamente se transformou em um movimento popular exigindo o fim da ditadura. Depois de meses de manifestações pacíficas, o próprio exército e as RSF (que na época eram aliadas) depuseram Bashir em 11 de abril de 2019. Ele foi preso, e os militares formaram um Conselho Militar de Transição. Os manifestantes, porém, continuaram acampados em frente ao quartel-general do exército, pressionando por um governo civil de verdade.
Depois da queda de Bashir, o Sudão tentou uma transição delicada para a democracia. Em agosto de 2019, militares e civis (representados pela coalizão Forças pela Liberdade e Mudança) assinaram um acordo de compartilhamento de poder. Criou-se um Conselho de Soberania misto, com o general Burhan como presidente, Hemedti como vice e um primeiro-ministro civil, o economista Abdalla Hamdok. O plano era preparar eleições e entregar o poder a um governo eleito. Mas a transição nunca se consolidou: os militares mantiveram controle real sobre o orçamento, o exército e os recursos do país, enquanto os civis enfrentavam sabotagem interna e crises econômicas herdadas. Em outubro de 2021, Burhan e Hemedti — que até então eram aliados — deram um golpe conjunto, prenderam Hamdok (que foi brevemente reinstalado e depois renunciou) e dissolveram o governo civil. Os dois generais alegaram que os civis eram “incompetentes”, mas o real objetivo era impedir que o poder escapasse das mãos das SAF e das RSF.
As RSF, aliás, não surgiram do nada: elas são herdeiras diretas da milícia Janjaweed, criada pelo regime de Bashir durante a guerra de Darfur, que começou em 2003. Darfur, região no oeste do Sudão, é um mosaico étnico e uma das áreas mais pobres do país. Ali, grupos não árabes sedentários — principalmente os fur, masalit e zaghawa, que são agricultores — entraram em conflito com pastores árabes nômades por causa de terras, água e pastagens, agravados pela desertificação e pela seca. O governo de Bashir armou milícias árabes (os Janjaweed) para combater rebeldes não árabes que acusavam Cartum de marginalização. O resultado foi uma campanha brutal de limpeza étnica: aldeias incendiadas, violações em massa, fome forçada. As estimativas são de que mais de 3 milhões de civis foram afetados de alguma forma, dos quais 200 a 300 mil mortos, e o Tribunal Penal Internacional acusou Bashir de genocídio. Em 2013, as milícias Janjaweed foram formalizadas como RSF, ganhando equipamentos modernos e autonomia. Hemedti, líder de uma tribo árabe de Darfur (os rizeigat), tornou-se um dos homens mais ricos do país graças ao controle de minas de ouro.
O controle de Cartum ao longo da guerra: de ocupação rápida a reconquista do exército
O controle de Cartum mudou dramaticamente ao longo dos três anos de guerra. No início, em 15 de abril de 2023, as RSF tomaram rapidamente grandes partes da capital, incluindo o palácio presidencial, o aeroporto e áreas centrais, forçando o governo e as SAF a recuar para Port Sudan. Por quase dois anos, as RSF mantiveram controle majoritário sobre a maior parte de Cartum, Omdurman e Bahri (as três cidades gêmeas), usando a área como base para operações e saques. A cidade virou um campo de batalha urbano devastado, com combates casa a casa e infraestrutura destruída.
Em meados de 2024 e início de 2025, as SAF lançaram uma grande ofensiva coordenada, usando drones, artilharia e ataques terrestres em múltiplas frentes. A virada começou no final de 2024, com avanços significativos em Omdurman e Bahri. Em março de 2025, as SAF reconquistaram o controle total de Cartum: capturaram o aeroporto, o palácio presidencial e pontes estratégicas como Soba, Manshiya e Jebel Aulia, isolando as forças da RSF e forçando sua retirada. O general Burhan declarou “Cartum está livre”, marcando um ponto de virada simbólico e militar. A cidade, porém, ficou em ruínas — ministérios, hospitais e prédios comerciais destruídos, com dezenas de milhares de civis mortos ou deslocados só na capital.
Em abril de 2026, as SAF controlam Cartum e a maior parte do centro e leste do Sudão. As RSF foram empurradas para o oeste (Darfur) e sul, mas o controle não é absoluto: bolsões de resistência e ataques esporádicos persistem. A reconquista de Cartum foi um ponto de virada, permitindo o retorno gradual das instituições governamentais, mas o custo humanitário foi enorme, com a capital transformada em uma cidade fantasma. Essa mudança alterou o equilíbrio de poder, dando às SAF maior capacidade logística para ofensivas em outras regiões.
As divisões étnicas além de Darfur: Kordofan e Nilo Azul
Além de Darfur, outras regiões do Sudão também carregam profundas divisões étnicas que alimentam o conflito atual entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF). Uma das mais importantes é a região de Kordofan, especialmente as Montanhas Nuba, no Sul de Kordofan. Ali vivem os nubas, um grupo étnico não árabe de agricultores e pastores que se sente historicamente marginalizado pelo poder central de Cartum. Durante a segunda guerra civil sudanesa (1983-2005), muitos nubas lutaram ao lado dos rebeldes do sul contra o regime de Omar al-Bashir. Depois da independência do Sudão do Sul em 2011, o conflito continuou em Kordofan como uma insurgência separada, com o Exército de Libertação do Povo do Sudão – Norte (SPLM-N), liderado por Abdelaziz al-Hilu (de origem nuba), controlando partes das montanhas. Os nubas acusam o governo central de discriminação, falta de investimentos e favoritismo aos árabes do Nilo. No conflito atual, a RSF — dominada por tribos árabes de Darfur e Kordofan — tem sido acusada de ataques direcionados contra comunidades nubas, incluindo massacres, violência sexual e saques.
A rivalidade étnica em Kordofan não é nova, mas ganhou força com a guerra. As SAF, vistas como mais ligadas às elites árabes do centro, contam com o apoio de milícias árabes locais (como hawazma e misseriya). Já a RSF, por sua vez, atraiu parte dessas mesmas tribos árabes, mas também formou alianças táticas com facções do SPLM-N em 2025. Essa aliança complicou o quadro: o que era uma luta por poder entre generais virou, em algumas áreas, uma briga entre “árabes” versus “não árabes”. Relatos de 2025 e 2026 mostram que a RSF realizou ataques em vilarejos nuba, enquanto as SAF usaram bombardeios aéreos que atingiram civis das mesmas comunidades. O resultado é um ciclo de vinganças étnicas que torna o controle de cidades como Kadugli e Dilling (capitais regionais) não só militar, mas também um símbolo de dominação étnica.
Outra região com forte componente étnico é o Nilo Azul (Blue Nile), ao leste de Kordofan. Ali predominam grupos como os ingessana (ou funj), também não árabes, que vivem em áreas montanhosas e férteis próximas à fronteira com a Etiópia e o Sudão do Sul. Assim como em Darfur e Kordofan, o regime de Bashir usou milícias árabes para reprimir rebeliões locais durante a guerra civil anterior. O SPLM-N tem presença forte na região, e em 2025-2026 o conflito se intensificou quando a RSF, aliada a facções do SPLM-N, abriu uma nova frente vindo do sul. A população local, já sofrida por anos de negligência, agora enfrenta deslocamentos em massa e violência entre facções que misturam lealdades étnicas com interesses em recursos como terras agrícolas e rotas comerciais.
Essas divisões étnicas nas “regiões periféricas” (Kordofan e Nilo Azul) contrastam com o centro do Sudão, dominado por árabes do Nilo (tribos como ja’alin, shaigiya e danagla), que historicamente controlam o poder em Cartum. As SAF são percebidas como defensoras dessa elite central, enquanto a RSF representa mais as periferias árabes de Darfur e Kordofan — mas ainda assim usa uma narrativa de “árabe versus africano” em várias frentes. O resultado é que o conflito atual não é apenas uma briga entre dois generais: ele reativa e amplifica ódios étnicos antigos, agravados pela disputa por ouro, petróleo (em Heglig, por exemplo) e terras férteis.
Essas rivalidades étnicas não surgiram do nada; elas vêm de décadas de marginalização das periferias pelo poder central, agravadas pela desertificação, pela escassez de recursos e pela manipulação política de identidades. Na guerra de 2023 em diante, tanto SAF quanto RSF recrutam milícias locais usando lealdades tribais, o que transforma disputas territoriais em confrontos étnicos sangrentos.
A crise humanitária: o maior desastre do mundo em números chocantes
O verdadeiro horror da guerra sudanesa não está apenas nas batalhas, mas no colapso total do Estado e na devastação da vida cotidiana. De acordo com dados da ONU, cerca de 14 milhões de pessoas foram deslocadas desde o início do conflito — nove milhões ainda dentro do Sudão e 4,4 milhões que cruzaram fronteiras para países vizinhos. Isso representa uma em cada quatro pessoas no Sudão e configura a maior crise de refugiados do planeta.
A fome é um inimigo silencioso mas mortal. Relatórios da ONU e da Integrated Food Security Phase Classification (IPC) de 2025 e 2026 indicam que 28,9 milhões de sudaneses — mais de 60% da população — enfrentam insegurança alimentar aguda. Quadros graves de fome foram confirmados em várias áreas de Darfur e Kordofan, com cerca de 375 mil pessoas em condições de fome catastrófica em setembro de 2025, número que desde então só piorou.
Estimativas de um enviado especial dos EUA, citadas em análises de 2025 e corroboradas por relatórios da NPR e do CFR em 2026, apontam que o total de mortes pode chegar a 400 mil, incluindo não apenas vítimas diretas de violência (estimadas em mais de 40 mil pela ONU), mas também as causadas por fome, doenças e falta de acesso a água e saúde.
Mulheres e crianças são as mais afetadas — relatos documentados por organizações como Human Rights Watch e Médicos Sem Fronteiras descrevem violações sistemáticas, incluindo violência sexual em massa, ataques a campos de refugiados e bloqueios de ajuda humanitária.
A infraestrutura colapsou: hospitais foram bombardeados, escolas fechadas e sistemas de água destruídos. Em Darfur, o colapso de El Fasher em outubro de 2025 desencadeou um dos maiores massacres étnicos do século XXI, com não árabes sendo alvo específico das RSF, segundo testemunhos verificados por satélite e relatórios da Yale Humanitarian Research Lab. A situação em Kordofan, com avanços recentes das RSF em campos de petróleo como Heglig, agravou ainda mais a escassez de alimentos, pois interrompeu rotas de suprimentos e comércio.
Agências humanitárias como a IFRC e a OIM alertam que a crise pode piorar em 2026 se não houver um cessar-fogo imediato e acesso irrestrito à ajuda. Mais de 30 milhões de pessoas precisam de assistência urgente, mas os planos de resposta estão sub financiados em mais de 60%, segundo apelos da ONU divulgados recentemente.
Efeito dominó: quando a guerra não fica só no Sudão
O que torna essa crise especialmente perigosa não é apenas o sofrimento interno, mas o risco de transbordamento para vizinhos já frágeis. O termo “spillover” refere-se ao efeito dominó: refugiados, armas, milícias e instabilidade econômica cruzando fronteiras. Fontes como o Lowy Institute, Crisis Group e relatórios do Conselho de Segurança da ONU de 2025-2026 documentam que esse fenômeno já está acontecendo em pelo menos cinco países principais.
O Chade: fronteira sobrecarregada e rotas de suprimentos
O Chade já recebeu mais de um milhão de refugiados sudaneses desde 2023 — mais do que em duas décadas combinadas. Relatórios da ONU de abril de 2026 mostram campos superlotados em Oure Cassoni e Gaga, com mais de 114 mil pessoas em um único local. A pressão sobre recursos hídricos, escolas e saúde é enorme em um país que já enfrenta sua própria instabilidade. Em fevereiro de 2026, o Chade chegou a fechar a fronteira de 1.300 km após ataques de drones das RSF e choques em El Tina, o que interrompeu rotas humanitárias e comerciais. Há evidências de que o Chade serve como corredor de suprimentos para as RSF, aumentando tensões diplomáticas e o risco de violência transfronteiriça.
O Sudão do Sul: crise fiscal, proxies e risco de nova guerra civil
Mais de 1,3 milhões de sudaneses fugiram para o Sudão do Sul, segundo a ONU. Isso agravou a pior crise humanitária do país, que já lidava com inundações e violência intercomunitária. O maior problema econômico veio do rompimento de oleodutos: o Sudão do Sul perdeu quase dois terços de sua receita de petróleo porque as lutas no Sudão interromperam exportações. Relatórios do Crisis Group de março de 2026 alertam que o país corre risco real de voltar a uma guerra civil plena, com as SAF e RSF usando milícias locais como proxies (guerra por procuração). Juba acusa o Sudão de armar opositores, enquanto o Sudão do Sul é suspeito de facilitar apoio externo às RSF. O resultado é um círculo vicioso: mais deslocados, mais fome e mais instabilidade que pode se espalhar para o Alto Nilo.
O papel da Etiópia: de neutro declarado a ator oculto no conflito
A Etiópia, embora declare neutralidade oficial, tem sido acusada de ter um papel ativo e secreto no conflito, favorecendo as RSF. Desde o final de 2025, relatórios de investigações jornalísticas (Reuters) e análises por satélite da Yale Humanitarian Research Lab indicam que o governo etíope permite o uso de território na região de Benishangul-Gumuz (especialmente uma base militar em Asosa) para treinamento de milhares de combatentes da RSF e aliados do SPLM-N. O acampamento, com capacidade para cerca de 4.300 combatentes, é financiado em parte por atores externos como os Emirados Árabes Unidos e serve como hub de logística, reabastecimento e preparação de ataques, incluindo na frente do Nilo Azul.
Esse envolvimento ganhou força com a abertura de uma nova frente no Nilo Azul entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Forças RSF e aliadas cruzaram a partir da Etiópia, lançando ofensivas a partir de território etíope, incluindo uso de drones e suprimentos vindos da base. O governo sudanês (SAF) acusa Addis Abeba de facilitar uma “invasão estrangeira”, com evidências de satélite confirmando atividade militar consistente com apoio logístico às RSF entre dezembro de 2025 e março de 2026. A Etiópia nega as acusações, mas relatórios independentes de fevereiro, março e abril de 2026 (incluindo o Yale HRL) confirmam a atividade. Os motivos incluem tensões históricas pela represa Grand Ethiopian Renaissance Dam (GERD), disputas de fronteira na região de Al-Fashaga e o interesse estratégico em criar uma zona tampão no Nilo Azul contra a instabilidade sudanesa.
Esse é um exemplo clássico de como conflitos regionais se interligam: a Etiópia, lidando com seus próprios desafios internos, transforma o Sudão em um palco de rivalidades proxy, elevando o risco de que o spillover se torne uma guerra regional mais ampla. As acusações ainda persistem, complicando qualquer esforço de mediação e aumentando a insegurança na fronteira.
Egito e outros vizinhos: água, segurança e rotas comerciais
O Egito, que apoia as SAF, recebe centenas de milhares de refugiados e vê na instabilidade sudanesa uma ameaça direta à sua segurança hídrica. O controle do Nilo é vital para o Cairo, e um Sudão fragmentado enfraquece sua posição nas negociações sobre a GERD. Além disso, a proliferação de armas e grupos armados no norte do Sudão aumenta riscos de terrorismo e tráfico na fronteira. Países como Líbia e República Centro-Africana também registram influxos menores, mas suficientes para tensionar economias frágeis e abrir espaço para atores externos.
Em resumo, o spillover não é hipotético: já há mais de 4,4 milhões de refugiados regionais, fechamentos de fronteiras, interrupções de comércio e sinais de envolvimento proxy. O International Rescue Committee e a IFRC, em relatórios de março de 2026, alertam que sem intervenção coordenada, a crise pode transformar o Chifre da África em um teatro de conflitos interligados.
Implicações estratégicas e o papel de atores externos
A guerra sudanesa não é isolada. Mapas de alianças regionais mostram rivalidades profundas, especialmente o envolvimento dos Emirados Árabes Unidos (EAU) e outros players. Os EAU são acusados de ser o principal apoiador das RSF, fornecendo armas (incluindo drones e artilharia chinesa, que acaba sendo re-exportada), financiamento via redes de ouro e logística — inclusive através de bases na Etiópia. Relatórios da ONU, Amnesty International, Reuters e do governo sudanês (que em março de 2025 levou o caso ao Tribunal Internacional de Justiça acusando os EAU de cumplicidade em genocídio) apontam que esse apoio prolonga o conflito, priorizando interesses econômicos como o ouro sudanês (quase 90% das exportações oficiais vão para os EAU). Os EAU negam fornecer apoio militar, mas evidências de voos, armas capturadas e relatórios independentes confirmam o padrão.
Do outro lado, o Egito e a Arábia Saudita inclinam-se para as SAF, oferecendo apoio político, treinamento e, em alguns casos, material bélico para preservar a estabilidade regional e interesses no Nilo. A Arábia Saudita atua também como mediadora via “Quad” (Egito, Arábia Saudita, Emirados e EUA), mas a rivalidade com os EAU complica as negociações. Outros atores incluem o Irã (drones para as SAF), a Turquia e o Qatar (apoio logístico às SAF), e a Rússia, que inicialmente flertou com as RSF via Wagner Group mas migrou para as SAF em busca de uma base naval em Port Sudan. Para o público leigo, o importante é entender que esses interesses externos — armas, ouro, influência no Chifre da África e no Mar Vermelho — prolongam o conflito, priorizando controle de recursos em detrimento de vidas humanas.
Os esforços de paz do “Quad” estagnaram em 2025-2026 devido a essas divisões. Reuniões em Washington e Berlim em 2026 pediram mais de 1 bilhão de dólares em ajuda, mas sem cessar-fogo, a assistência chega de forma limitada. O Conselho de Segurança da ONU discute spillover regularmente, mas sanções e mediações têm efeito modesto.
Conclusão
A guerra civil sudanesa completa três anos como uma das maiores tragédias humanitárias do século XXI — maior em deslocamentos e fome do que muitos conflitos mais midiáticos. Os números são claros e alarmantes: 14 milhões de refugiados, fome afetando 29 milhões, mortes na casa das centenas de milhares e risco real de instabilidade em toda a região. O foco nas questões humanitárias revela não só o sofrimento imediato, mas também como a ausência de acesso a comida, saúde e segurança transforma uma guerra de generais em uma catástrofe coletiva.
Os riscos de spillover são o alerta estratégico: o Chade luta com mais de um milhão de refugiados e rotas de armas; o Sudão do Sul vê sua economia colapsar e sua própria paz ameaçada; a Etiópia enfrenta tensões fronteiriças que ecoam disputas pelo Nilo e agora é acusada de envolvimento direto via base em Asosa; e o Egito protege interesses vitais de água. O papel dos EAU como principal financiador das RSF e de outros atores externos apoiando as SAF torna a guerra um proxy regional. Sem ação coordenada — cessar-fogo humanitário, acesso irrestrito a ajuda e pressão sobre atores externos —, o conflito pode se tornar uma partição permanente ou uma guerra regional por procuração.
Guerras como a do Sudão, apesar de “esquecidas”, dificilmente ficam confinadas. Elas geram ondas de refugiados, fome global (pelo impacto em commodities como goma-arábica e óleo), instabilidade migratória e oportunidades para extremismos. A comunidade internacional, incluindo o Brasil, tem interesse em apoiar soluções diplomáticas e humanitárias urgentes. O Sudão precisa de paz não só por seus cidadãos, mas para impedir que o mapa da África Oriental se redesenhe em fogo e sofrimento.
A hora é agora. Os diversos relatórios são unânimes: sem trégua e sem financiamento adequado, 2026 pode ser o ano em que a crise sudanesa deixa de ser “apenas” a pior do mundo para se tornar a mais perigosa para a região inteira.


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